A última temporada do programa “Amor e Sexo”, transmitido pela Rede Globo, terminou no dia 13 de abril. Durante sua exibição, foram abordados assuntos diversos, tais como sexo na terceira idade, identidade de gênero e homossexualidade. Já em uma temporada madura (sua 8ª), o programa deixou de ser entretenimento leve para casais héteros e passou a se aventurar pelas águas sociais. O que quer que isso signifique.

É interessante que tenhamos na TV aberta brasileira um programa dedicado exclusivamente à sexualidade, embora suas pautas sejam múltiplas. Sexo é um inquestionável tabu social no Brasil. O país é extremamente contraditório nesse sentido. Somos um país liberal na capa: carnaval e pouca roupa. No entanto, em nossas raízes, mantemos conservadorismo e hipocrisia. Os “cidadãos de bem” que costumam se autoproclamar assim, são seres sociais geralmente apolíticos e pouco empáticos. Com alguma formação acadêmica e pouca formação social, no que toca questões mais delicadas aos seres de classes diversas.

Vivemos uma certa discrepância em relação aos jovens na faixa entre 14 e 24 anos, que dominam o dicionário da nova realidade brasileira, palavras como cis e trans não os assustam. Mas se vamos falar de gerações menos socialmente virtuais, mesmo que não se enxerguem assim, tais conceitos parecem novos e ameaçadores. Não necessariamente por preconceito, mas por não fazerem parte da sua dialética.

A questão de programas como “Amor e Sexo” é que trazem uma roupagem muito glitterizada para assuntos que na vivência real não são tão divertidos assim. Embora apareça em campanhas publicitárias, entrevistas, programas, textos e textões, o feminismo não é um assunto leve. E nem pode ser. Ele é sobre combater misoginia (ódio a mulheres), sobre corrigir um problema de classe, sobre parar de matar seres nascidos com útero. E nesse aspecto o entretenimento de musicais da Broadway não parece servir.

Análises gerais

O lado positivo é levar tópicos improváveis para locais pouco familiarizados com tais assuntos. Não podemos esquecer que o Brasil é vasto e é muito mais do que a Zona Sul do Rio de Janeiro. Também é nesse ponto que a própria esquerda brasileira parece falhar, chegar a locais distantes. E isso consiste em muito mais do que fazer campanha em favela, mas em chegar através do discurso de maneira generosa. E para isso é preciso não ser arrogante. Nesse sentido podemos dizer que o programa “Amor e Sexo” não é arrogante ao extremo e mostra um roteiro consciente do seu papel. O veículo Rede Globo não está voltado para a nata mega politizada, educada e distante do chão dos movimentos sociais tocados pela classe média alta. A emissora é popular. O programa existe dentro de uma lógica que conhece seu público-alvo ancião. Mas não se fecha para o novo.

Ainda é cedo para dizer se o feminismo propagado liberalmente nos meios de comunicação trará efeitos positivos ou negativos. As feministas liberais dirão que sim. As radicais dirão que não. As interseccionais possivelmente irão ponderar. Tantas outras terão visões múltiplas. Talvez seja melhor aceitar um “Amor e Sexo” comandado pela Fernanda Lima cheia de purpurina que não ver tais assuntos abordados na TV aberta.

Caso encontre uma nova temporada, o programa pode amadurecer para um entretenimento mais consciente, sem focar tanto no lacre, no samba, no pisão. A vida real, cheia de cruezas e crueldades, encontra desafios não tão glamourosos quanto o figurino da apresentadora. No final do dia não podemos esquecer que estamos lidando com a vida de minorias historicamente subjugadas. E isso não pode ser tratado sempre com oportunismo e veia publicitária. Acredito que já estamos maduros para isso.


Por Érika Nunes