Dirigido por Dandara Ferreira, Anatomia do Caos revisita os bastidores da CPI da Covid e escancara as articulações que tentaram blindar Bolsonaro e seus aliados durante a sindemia que matou mais de 700 mil brasileiros.
Jair Messias Bolsonaro governou o Brasil entre 2019 e 2023, período no qual, para o infortúnio fúnebre dos brasileiros, ocorreu a sindemia da Covid-19. O termo sindemia é empregado aqui porque não foi apenas o vírus que dizimou a população, mas também as condições sociais da época, uma vez que o povo foi abandonado à própria sorte por um governo que desmantelou as estruturas de saúde e não agiu para combater o grave problema que se alastrava. Portanto, muitos morreram devido à falta de oxigênio nos serviços públicos de saúde ou por ingerirem medicamentos inadequados, receitados por profissionais de planos de saúde que apoiavam aquela gestão.
Após inúmeras denúncias formuladas por opositores, especialistas e autoridades, em 2021 foi instaurada a CPI da Covid, cuja finalidade era investigar o criminoso que ocupava o poder, assim como seus asseclas. É a essa comissão que o documentário“Anatomia do Caos” se dedica, ao exibir imagens de arquivo, materiais jornalísticos da época e, principalmente, os bastidores daquela investigação, evidenciando o trabalho dos parlamentares contra Bolsonaro e as articulações dos aliados para frustrar qualquer acusação que pudesse surgir. Um dos personagens retratados, inclusive, é o atual candidato de direita para as próximas eleições: Flávio Bolsonaro.

Além dele, ainda há momentos protagonizados por figuras como Nise Yamaguchi, Eduardo Pazuello, Carlos Wizard Martins, Luciano Hang, entre outras. Esses indivíduos tornam a obra, dirigida por Dandara Ferreira, penosa de assistir, dada sua repugnância, sua aversão à verdade e sua ânsia por poder. Para complicar ainda mais, há outra figura que, mesmo situada do lado oposto, o de acusador, é difícil de tolerar: Renan Calheiros. A aura de malandro do político confere àquela comissão um ar um tanto surreal. Ou seja, ao ver Calheiros na tela, logo vem à mente aquele conhecido ditado: o sujo julgando o mal lavado.
Contudo, por mais árduo que seja, é necessário suportar a presença dessas figuras, já que “Anatomia do Caos” funciona como registro histórico, para que a população jamais esqueça aqueles que provocaram a morte de mais de 700 mil pessoas. Esse documentário deveria ser exibido mensalmente em todas as escolas do país, a fim de ensinar crianças e jovens a não conduzirem criminosos ao poder por meio do voto, transformando-os em presidentes, senadores e deputados, nem a dar crédito a oportunistas e charlatões que circulam pela internet.
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As intenções pedagógicas de Dandara Ferreira ficam evidentes na obra, mas também é possível enxergá-la como um fragmento de memória de um período traumático do Brasil. Tais memórias são apresentadas de forma lúgubre, sobretudo pelos planos de transição sombrios que a diretora constrói em meio às sombras dos prédios do poder. Por vezes, a câmera é posicionada em cantos das estruturas, capturando o ambiente vazio e inerte que a circunda. Outro recurso empregado, que intensifica a sensação de angústia, é a contagem de óbitos, exibida periodicamente para traçar um paralelo com o andamento da CPI.
“Anatomia do Caos” é, portanto, muito bem articulado por sua diretora e por suas intenções. O único aspecto que lhe retira a medalha de mérito absoluto é o fato de que todo brasileiro que o assiste já sabe exatamente como aquela história termina, ainda que isso não seja culpa da obra, que retrata e convida a revisitar, e sim da própria história que é por si anticlimática. Isso tira um pouco de seu impacto, por mais que ela seja muito bem-vinda.
Por tudo isso, seria fundamental que a obra alcançasse o maior número possível de espectadores e, como mencionado, recordasse o quanto a família Bolsonaro pode ser nociva, devendo ser impedida de retornar ao poder. Afinal, não se deseja que mais vidas inocentes sejam ceifadas.
Imagem destacada: Divulgação/Las Margaridas Filmes, Descoloniza Filme e Movioca



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