Dirigido por Agnieszka Holland, o longa explora a vida, os conflitos e o legado de Franz Kafka, escritor cuja obra ainda divide leitores entre admiração e estranhamento
Com cenas de tirar o fôlego e uma narrativa sensível, o filme “Franz” mergulha na vida de Franz Kafka para revelar as vivências, os conflitos e as inquietações que moldaram sua personalidade e o transformaram em um dos maiores ícones da literatura mundial.

Quem foi Franz Kafka?
Franz Kafka foi um dos escritores mais influentes do século XX e uma das figuras mais enigmáticas da literatura mundial. Nascido em Praga, em 1883, transformou suas angústias, conflitos familiares e o sentimento constante de inadequação em obras que atravessaram gerações. Livros como “A Metamorfose“, “O Processo e O Castelo” consolidaram seu nome como um dos principais representantes da literatura moderna.
Para Kafka, a escrita nunca foi um simples passatempo. Era uma válvula de escape. Em seus manuscritos, depositava medos, frustrações e experiências pessoais como uma forma de enfrentar uma realidade que muitas vezes lhe parecia sufocante. Grande parte dessa visão foi influenciada pela relação difícil com o pai, Hermann Kafka, um homem rígido, controlador e pouco receptivo ao desejo do filho de seguir a carreira de escritor.
Existe ainda uma das maiores ironias de sua trajetória: Kafka jamais imaginou a dimensão que sua obra alcançaria. Antes de morrer, pediu que seus manuscritos fossem destruídos. O desejo, porém, não foi cumprido por seu amigo Max Brod, que decidiu preservá-los e publicá-los. Graças a essa decisão, o autor se tornou uma referência mundial e influenciou gerações de escritores e leitores.
LEIA TAMBÉM
Segredo Obscuro | Quando a Beleza é um Segredo Que Vem de Dentro da Casca (Literalmente)!
Supergirl Acerta com Milly Alcock, Mas Roteiro Impede Voo Maior
Toy Story 5 | Filme Marca o Retorno Triunfal dos Brinquedos Mais Famosos do Cinema

A personalidade de Franz: um homem muito diferente do mito
A imagem de Franz Kafka costuma ser associada à de um homem antissocial, frio e permanentemente deprimido. Os registros históricos, no entanto, revelam alguém muito mais complexo. Amigos próximos, como Max Brod, descreviam Kafka como um homem gentil, elegante, educado e dono de um humor irônico e refinado. Durante a leitura dos primeiros rascunhos de “A Metamorfose“, por exemplo, ele chegava a rir às lágrimas ao lado dos amigos.
As maiores batalhas de Kafka aconteciam longe dos olhares. A insegurança e a autocrítica o acompanhavam diariamente, alimentadas, em parte, pela relação difícil com o pai. Embora despertasse interesse das mulheres e fosse admirado por quem o conhecia, enxergava a si mesmo como insuficiente. Essa busca quase impossível pela perfeição também se refletia na literatura: revisava seus textos sem cessar e acreditava que boa parte deles nunca estava pronta.
Outro aspecto pouco conhecido é que Kafka levava uma vida extremamente disciplinada. Era um funcionário respeitado na seguradora onde trabalhava, cumpria suas obrigações com rigor e mantinha hábitos voltados ao cuidado com a saúde, como a prática de exercícios físicos e uma alimentação regrada. O silêncio também fazia parte de sua rotina, já que costumava escrever durante a madrugada para fugir do barulho e encontrar a concentração que tanto buscava.
Filme Franz apresenta um retrato fiel de Franz Kafka
Um dos maiores acertos de “Franz” é conseguir traduzir para a tela a personalidade do escritor com fidelidade aos registros históricos. O filme retrata suas inquietações, o processo singular de criação, os relacionamentos amorosos e a relação marcada por conflitos com o pai, elementos que influenciaram diretamente sua vida e sua produção literária.
Outro ponto que chama a atenção é a forma como a narrativa conecta passado e presente. Em diferentes momentos, o longa acompanha grupos de turistas visitando os lugares onde Kafka viveu, passou parte da vida e escreveu suas obras. Restaurantes, ruas, museus e manuscritos originais aparecem como parte desse percurso, criando um diálogo entre a história do escritor e a memória preservada até os dias atuais.
Esse recurso amplia a experiência do público. Em vez de encerrar a trajetória de Kafka nos acontecimentos do passado, o filme desperta a curiosidade para conhecer sua obra, visitar os espaços que marcaram sua vida e compreender por que seu legado continua tão presente mais de um século depois.

Um elenco que transforma a história em emoção
Grande parte da força de “Franz” está nas interpretações do elenco. Idan Weiss, que dá vida a Franz Kafka, consegue transmitir a essência do escritor sem recorrer a exageros. Seu olhar, a postura contida, o charme discreto e o humor irônico refletem a personalidade descrita por amigos próximos de Kafka, tornando sua interpretação convincente do início ao fim.
Outro grande destaque é Peter Kurth, que interpreta Hermann Kafka, pai de Franz. Sempre que o personagem entra em cena, é difícil desviar os olhos da tela. A firmeza na voz, a postura imponente e a rigidez com que trata o filho fazem com que o espectador compreenda a influência que essa figura autoritária exerceu sobre a vida do escritor. Cada confronto entre pai e filho carrega uma tensão que se torna um dos pontos altos do filme.
Também merece destaque a atuação de Jenny Schily, intérprete de Julie Kafka, mãe de Franz. Mesmo com poucas palavras, a atriz transmite, por meio do olhar e das expressões, o receio diante da autoridade do marido. Em vários momentos, percebe-se uma mulher que evita confrontá-lo, refletindo a posição ocupada por muitas esposas naquele período, quando questionar o marido nem sempre era uma possibilidade. Esse comportamento também se estende às irmãs de Franz, reforçando a dinâmica familiar marcada pela submissão e pelo silêncio diante da figura de Hermann Kafka.
Fotografia e direção a serviço da história
Os aspectos técnicos de “Franz” ajudam a transformar a experiência do espectador em algo ainda mais imersivo. A fotografia chama a atenção pela forma como retrata Praga, com cenários de um realismo impressionante que transportam o público para o início do século XX. Cada ambiente contribui para reforçar a atmosfera melancólica e introspectiva que acompanha a trajetória de Kafka.
A direção também merece destaque pelas escolhas visuais. Em diversos momentos, a alternância entre os enquadramentos e o uso do foco seletivo direcionam o olhar do espectador para as emoções e inquietações dos personagens, criando uma narrativa que muitas vezes comunica mais pelas imagens do que pelos diálogos.
Os figurinos completam esse trabalho com precisão. As roupas respeitam a estética da época e ajudam a construir a identidade de cada personagem. Os trajes masculinos, em especial, chamam a atenção pela elegância e pelo cuidado nos detalhes, reforçando a sensação de que estamos acompanhando um retrato fiel do período em que Franz Kafka viveu.

Nem todos os excessos fortalecem a narrativa
Embora “Franz” emocione ao retratar as inquietações, os conflitos familiares e o processo criativo do escritor, algumas escolhas acabam enfraquecendo a narrativa. As cenas de nudez, por exemplo, aparecem com frequência e, em determinados momentos, parecem acrescentar pouco ao desenvolvimento da história ou à construção dos personagens.
Quando utilizadas com propósito, essas cenas contribuem para reforçar o realismo da época e a vulnerabilidade dos personagens. No entanto, em alguns trechos, a sensação é de que o excesso desvia a atenção do que o filme faz de melhor: explorar a complexidade de Franz Kafka e os acontecimentos que moldaram sua vida e sua obra.
Ainda assim, esse detalhe não compromete a qualidade do longa, que permanece envolvente e fiel à essência do escritor.
COMPRE AQUI
O livro do cinema
Como falar sobre cinema: Um guia para apreciar a sétima arte
História do cinema mundial
Vale a pena assistir Franz?
Sim, especialmente para quem deseja conhecer além das páginas de seus livros. Sem transformar o escritor em uma figura inalcançável, Franz apresenta um homem marcado por dúvidas, conflitos familiares, amores, inseguranças e uma criatividade que encontrou na escrita uma forma de enfrentar a própria realidade.
Mesmo com algumas escolhas que poderiam ser mais contidas, como o excesso de cenas de nudez, o longa entrega uma experiência envolvente. As atuações consistentes, a reconstrução cuidadosa da Praga do início do século XX e o respeito aos registros históricos fazem do filme uma obra que desperta a curiosidade sobre a vida e o legado de Kafka.
Ao fim da sessão, fica a sensação de que compreender Franz Kafka é também compreender a origem de histórias que continuam dialogando com diferentes gerações. Talvez esse seja o maior mérito do filme: despertar no espectador a vontade de descobrir ou revisitar a obra de um dos escritores mais influentes da literatura.
“Franz” estreia no dia 2 de julho nos cinemas de todo o Brasil.
Imagem Destacada: Divulgação/A2 Filmes



Sem comentários! Seja o primeiro.