Terror sobrenatural AnyMart faz parte da plateia abandonar a sala na 50ª Mostra
Uma loja de conveniência em Tóquio converte-se em microcosmo de uma sociedade japonesa extremamente apática, solitária e deprimida. Essa é a premissa de “AnyMart”, escrito e dirigido pelo estreante Yusuke Iwasaki. No entanto, como em um mangá ou anime excêntrico, a crítica social do texto de Iwasaki não se limita às cenas de monotonia quase insuportável nem aos personagens que parecem anestesiados: ela avança também por um enredo sobrenatural que gera momentos de gore tão impactantes que muitos espectadores da sessão realizada durante a 50ª Mostra de Cinema de São Paulo não suportaram e deixaram a sala.

O filme acompanha Sakai (Shôta Sometani), o solitário subgerente da loja, visivelmente cansado do trabalho e da vida em geral. Ele tenta se aproximar de garotas que conhece pela internet e, nas horas livres, joga incessantemente no celular um game, ironicamente, de administração de um mercado. É a simulação virtual do real que o ajuda a suportar a existência física e as pessoas desinteressantes que cruzam seu caminho. Tudo muda, porém, com a contratação de Ogawa (Erika Karata), que, ao contrário dos demais, meros serviçais sem personalidade, imprime um sopro de vitalidade ao local. Repleta de planos para o futuro, ideias próprias e iniciativa, a jovem, além de alegrar o ambiente, também parece provocar uma transformação nas pessoas à sua volta, já que sua chegada coincide com a morte misteriosa de outros funcionários, das maneiras mais bizarras possíveis, e com a mudança de comportamento do dono do estabelecimento, que se torna extremamente violento.

A partir daí, o roteiro de Iwasaki tece sua crítica ao Japão e a uma população cada vez mais apática e voltada para si mesma, além de apontar o dedo para o trabalho como um dos vilões desse adoecimento coletivo. A intenção é interessante, pois o mundo costuma enxergar os japoneses como extremamente criativos e empregados em empresas de tecnologia de ponta. Na verdade, segundo o que é exposto em “AnyMart”, o que existe é um povo tomado pelo tédio, que se entusiasma com algo por algum tempo e depois o abandona sem cerimônia, como mostra a subtrama do dono de um restaurante francês, cujo negócio prospera no início para depois falir por falta de clientela.
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Em suma, a pretensão é revelar a face real de um povo frequentemente romantizado no exterior, mas que é tão problemático quanto os demais. Para isso, o filme começa apostando em longos planos mortos, nos quais quase nada acontece, e desemboca em um terceiro ato chocantemente sangrento. A escalada da tensão e a irrupção da violência poderiam causar nos cineastas a vontade de adotar um formato mais afeito aos movimentos de câmera e cortes rápidos, mas eles se mantêm fiéis ao rigor narrativo de poucos movimentos de câmera e pela preferência pelo naturalismo das imagens. Isso desperta no espectador uma sensação de inquietude, como se testemunhasse algo que poderia de fato acontecer com ele a qualquer momento, afinal, o que é a vida cotidiana senão monotonia e violência?
“AnyMart” foi visto durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, e ainda não possui distribuição confirmada no Brasil até o momento da publicação deste texto.
Imagem destacada do filme “AnyMart”: Divulgação/NOTHING NEW



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