Grupo enfrentou uma Cidade do Rock encharcada, revisitou alguns dos maiores sucessos dos anos 2000, homenageou a música brasileira e ainda mandou um recado carinhoso para Fergie.
Black Eyed Peas entrou no Palco Mundo do Rock in Rio 2026 com um adversário que nenhum artista consegue controlar: o temporal. A chuva já castigava a Cidade do Rock na noite de domingo, 6 de setembro, mas quem esperava encontrar uma plateia desanimada viu exatamente o contrário. Bastaram os primeiros segundos de “Let’s Get It Started” para capas de chuva, roupas molhadas e poças no gramado virarem detalhes diante de um público disposto a dançar. A partir dali, will.i.am, apl.de.ap e Taboo transformaram o espaço em uma enorme pista de festa e entregaram uma das apresentações mais energéticas do fim de semana.
A sequência de abertura ajudou bastante. Depois de “Let’s Get It Started”, vieram “Boom Boom Pow” e “Rock That Body”, músicas tão associadas ao auge comercial do grupo que praticamente dispensam apresentação. O Black Eyed Peas entendeu rapidamente o tipo de show que aquele público precisava naquele momento e evitou qualquer aquecimento demorado. Em uma noite fria, chuvosa e marcada por horas de festival, a estratégia foi simples: entregar reconhecimento imediato e manter a energia sempre alta.

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A chuva virou parte da festa
Não dá para falar da apresentação sem falar da chuva. Ela acompanhou boa parte do dia e continuou durante o show do grupo. Só que, em vez de esvaziar o gramado ou criar aquela sensação de resistência até o próximo artista, acabou funcionando quase como parte da experiência. A plateia permaneceu pulando, cantando e dançando enquanto o Black Eyed Peas seguia disparando músicas feitas justamente para grandes multidões.
Talvez por isso a apresentação tenha ganhado uma espontaneidade que nem sempre aparece em shows gigantes. Havia menos preocupação com aparência, cabelo, roupa ou celular protegido e mais gente simplesmente tentando aproveitar o momento. Era o tipo de cena que combinava perfeitamente com a proposta do grupo: música pop construída para eliminar qualquer distância entre palco e pista.
A chuva ainda rendeu um daqueles momentos que parecem planejados mesmo quando não são. Perto do fim da apresentação, will.i.am cantou um trecho de “Chove Chuva”, de Jorge Ben Jor. Fazer isso diante de milhares de pessoas literalmente encharcadas criou uma conexão imediata com o público brasileiro e resumiu bem o clima da noite: já que ninguém conseguiria fugir da água, o melhor era fazer dela parte do show.

Um repertório feito para lembrar por que eles dominaram os anos 2000
Poucos grupos têm à disposição uma sequência de singles tão imediatamente reconhecível quanto o Black Eyed Peas. Além das três músicas que abriram o espetáculo, o repertório passou por “RITMO (Bad Boys for Life)”, “MAMACITA”, “Pump It”, “Don’t Lie”, “Don’t Stop the Party”, “The Time (Dirty Bit)” e, naturalmente, “I Gotta Feeling”, escolhida para fechar a apresentação. Também apareceram faixas da carreira solo de will.i.am, como “#thatPower” e “Scream & Shout”.
É fácil reduzir esse tipo de set a nostalgia, mas existe outro aspecto mais interessante aí. Muitas dessas músicas foram produzidas em uma época em que as fronteiras entre hip-hop, pop e eletrônico começavam a se dissolver de forma muito mais agressiva no mainstream. O Black Eyed Peas foi parte importante desse movimento e ajudou a definir a sonoridade das rádios, festas e pistas de dança dos anos 2000 e início dos anos 2010. No palco, fica evidente por que aquele repertório sobreviveu: há refrões simples, batidas enormes e uma preocupação quase permanente em provocar resposta física da plateia.
O resultado foi um show em que reconhecer uma música parecia servir imediatamente de combustível para a seguinte. Não havia necessidade de conhecer o trabalho mais recente para participar. Quando “Pump It” ou “I Gotta Feeling” começavam, a memória coletiva resolvia o resto. É aí que a nostalgia deixou de ser apenas lembrança individual e virou experiência compartilhada.
Fergie não estava no Palco, mas estava na conversa
Mesmo sem participar da apresentação, Fergie continuou pairando sobre o show. A cantora deixou o grupo em 2017 e, desde então, J. Rey Soul passou a ocupar parte importante das linhas vocais femininas nas apresentações do Black Eyed Peas. No Rock in Rio, ela teve bastante espaço e assumiu vocais em diversos sucessos ligados à fase mais popular da banda.
Ainda assim, will.i.am fez questão de mencionar a antiga companheira. Ao falar da trajetória do grupo e agradecer ao público brasileiro pelo apoio às diferentes fases da banda, ele mandou uma mensagem direta para Fergie, dizendo que o grupo a amava e sentia sua falta. A declaração ganhou força porque aquela formação clássica continua muito presente na memória de uma parte considerável do público.
A ausência de Fergie também evidencia uma característica curiosa do Black Eyed Peas atual. O grupo segue em frente, lança músicas, faz shows e encontra novas formas de reorganizar o próprio repertório, mas sabe que boa parte de sua história popular está diretamente ligada ao período em que ela fazia parte da formação. Em vez de apagar isso, a banda escolheu reconhecer publicamente essa importância.

Black Eyed Peas também fez questão de olhar para o Brasil
A relação com o país não ficou restrita a algumas frases em português. O show teve participação do produtor Papatinho, que levou elementos do funk carioca ao Palco Mundo e dividiu espaço com will.i.am. O repertório ainda trouxe referências à música brasileira e reforçou a tentativa do grupo de criar uma apresentação que conversasse diretamente com o público local.
Will.i.am também demonstrou interesse em aproximar o repertório do contexto brasileiro, algo que combina com a própria trajetória musical do Black Eyed Peas. O grupo sempre trabalhou com a mistura de gêneros, referências internacionais e elementos da cultura pop de diferentes lugares, principalmente depois que passou a ocupar o centro do pop mundial.
Trazer essas referências para o Rock in Rio não representou uma mudança de direção, mas uma extensão natural dessa identidade. Em vez de executar apenas uma sequência de sucessos exatamente como foram gravados, a banda procurou inserir elementos que fizessem sentido naquela noite e naquele público.

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Quando I Gotta Feeling começou, o temporal já tinha perdido
O fechamento com “I Gotta Feeling” era previsível, mas dificilmente poderia haver escolha melhor. A música foi construída em torno da expectativa de que uma noite será inesquecível, e havia algo quase engraçado em ouvi-la depois de chuva, lama, capas plásticas e milhares de pessoas que decidiram continuar ali mesmo assim.
O Black Eyed Peas no Rock in Rio 2026 mostrou que um grande show de festival nem sempre precisa de uma narrativa complicada. Às vezes, funciona justamente porque entende exatamente o que tem para oferecer. O grupo tinha hits suficientes para mexer com as gerações, uma plateia disposta a participar e uma chuva que poderia facilmente derrubar o clima da noite. Em vez disso, o temporal virou cenário para uma festa enorme.
Quando o público canta, pula e dança enquanto a água cai sem dar trégua, existe pouco espaço para discutir se aquela música pertence a 2005, 2009 ou 2026. Ela simplesmente funciona naquele instante. E foi isso que o Black Eyed Peas conseguiu fazer: por pouco mais de uma hora, transformar uma Cidade do Rock encharcada em uma pista de dança onde até sentir falta da Fergie virou parte da comemoração.
Imagem Destacada: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@VansBumpeers)


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