Entre “Malvadão 3”, “Leão”, Poesia Acústica, músicas novas e Major RD, o rapper revisitou a própria história no palco onde tudo ganhou outra escala em 2019
Xamã voltou ao Espaço Favela do Rock in Rio 2026 às 19h10 de domingo carregando uma história que cabia perfeitamente naquele cenário. Sete anos antes, ele havia subido ao mesmo palco sem sequer ter visitado a Cidade do Rock como público. A apresentação de 2019 foi seu primeiro grande festival, diante de uma multidão muito maior do que qualquer plateia que havia enfrentado até então. O próprio rapper já contou que passou os primeiros segundos chorando e praticamente sem conseguir cantar. Em 2026, a situação era outra: o artista retornava com hits nacionais, discos, televisão, cinema e uma estrutura de show muito mais ampla.
Essa diferença estava no palco antes mesmo de qualquer lembrança ser verbalizada. Xamã chegou acompanhado por banda e DJ e construiu uma apresentação que procurava resumir várias versões de sua carreira: o MC que veio das batalhas, o rapper ligado à primeira geração do Poesia Acústica, o artista que explodiu com “Malvadão 3”, o compositor de “Leão”, o nome que passou a circular pelo pop e, agora, o músico que tenta abrir mais espaço para afrobeat, amapiano, dancehall e house em “Flerte”. O álbum saiu em 27 de agosto, poucos dias antes do festival, e entrou no show como sinal de um presente que ainda disputa atenção com um passado muito conhecido.
O maior acerto da noite foi não tentar esconder essa mistura. Xamã possui uma discografia construída por mudanças de linguagem, colaborações e referências que nunca respeitaram uma divisão rígida entre rap, funk, R&B ou música popular brasileira. No Espaço Favela, isso virou uma apresentação fragmentada por natureza, mas suficientemente segura para manter uma linha emocional. O problema apareceu quando a quantidade de material começou a ser maior que o relógio. Uma hora pode contar uma história; comprimir quase dez anos nela exige cortes que deixam algumas fases respirando pouco.
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Voltar ao Espaço Favela muda o peso das músicas antigas

O retorno ganha força porque 2019 não foi simplesmente mais uma data na agenda. Xamã vinha das batalhas de rima e de discos como “Pecado Capital” e “O Iluminado” quando recebeu o convite para fechar a programação do então recém-criado Espaço Favela. Depois daquele show, a relação com o Rock in Rio continuou crescendo. Em 2022, ele foi ao Palco Sunset com Brô MC’s, L7NNON e Major RD e ainda participou do espetáculo “1985: A Homenagem” ao lado de Ivan Lins e outros artistas. Em 2024, voltou ao Sunset no “Pra Sempre Rap”, dividindo a apresentação com Criolo, Djonga, Karol Conká, Marcelo D2, Rael e Rincon Sapiência.
Por isso, ouvir trechos de Poesia Acústica em 2026 produz uma sensação diferente daquela de sete anos atrás. As faixas já carregam memória de uma fase do rap nacional em que cyphers publicadas na internet ajudaram a lançar artistas para públicos que ultrapassavam o circuito tradicional do gênero. Xamã foi uma das figuras mais reconhecíveis desse período, e músicas como “Poesia Acústica #6: Era Uma Vez” e “Poesia Acústica #9: Melhor Forma” permanecem entre as mais recorrentes de seu repertório ao vivo.
A nostalgia funciona porque o artista atual é muito diferente daquele MC. Hoje existe uma consciência de palco maior, mais controle sobre pausas e sobre a alternância entre canto e rima, além de uma produção capaz de sustentar músicas que originalmente dependiam muito mais de beat e microfone. Quando essas faixas retornam no Espaço Favela, não soam como tentativa de voltar à juventude. Funcionam como marcação de distância: o público reconhece o início e consegue enxergar o tamanho do percurso percorrido desde então.
O show perde um pouco dessa força quando tenta avançar rápido demais de um período para outro. Alguns medleys e transições cumprem a missão de colocar mais títulos na apresentação, mas reduzem o tempo necessário para determinadas músicas atingirem todo o impacto que possuem. Xamã queria resumir uma carreira que, segundo ele próprio, poderia render três horas. Em vários trechos, a vontade de mostrar tudo fica visível demais.
“Malvadão 3” ainda é o momento em que o público assume o comando

Existe uma diferença clara entre músicas que o público reconhece e aquelas que alteram imediatamente o comportamento de uma plateia. “Malvadão 3” pertence ao segundo grupo. O hit que levou Xamã ao topo das plataformas em 2021 aparece no repertório atual como uma espécie de ponto de encontro entre diferentes públicos: quem veio das batalhas conhece, quem chegou pelo pop conhece, quem acompanha televisão conhece e até quem não segue rap provavelmente já ouviu o refrão em algum momento.
No Espaço Favela, essa familiaridade permitiu que Xamã diminuísse parte do esforço de condução. As vozes vinham do público, os braços se levantavam e o show assumia por alguns minutos uma dimensão mais próxima da festa do que da narrativa biográfica. Essa reação também deixa claro por que condensar uma carreira inteira é tão difícil. Quando uma música dessa escala aparece, qualquer faixa menos conhecida que venha depois precisa reconstruir atenção.
A estrutura com banda ajuda a dar outro corpo aos hits. O repertório de Xamã nasceu em boa parte dentro da produção eletrônica e do trap, mas ganhou mais impacto físico quando bateria, baixo e outros elementos ao vivo entraram em cena. O show evitou aquela sensação de rapper acompanhado apenas por DJ enquanto grandes áreas do palco permanecem vazias. Havia movimento suficiente para que o Espaço Favela parecesse ocupado por uma apresentação planejada para festival.
Esse crescimento de escala também funciona como resposta à própria história de 2019. Na estreia, a surpresa era ver Xamã diante de tanta gente. Em 2026, o tamanho do público já não surpreende; a questão passa a ser como ele utiliza esse espaço. O rapper mostrou mais domínio, embora em alguns momentos a quantidade de arranjos, trechos e mudanças de ritmo criasse uma densidade maior do que certas músicas pediam.
Major RD recupera uma parceria que já faz parte da história dos dois
A chegada de Major RD para “Só Rock 2” foi uma das participações mais naturais do show. Os dois já dividem músicas, palcos e uma relação artística construída dentro da cena carioca. A própria faixa foi lançada em 2022 com Xamã, Major e Young Ganni, trabalhando guitarras e referências visuais associadas ao rock. Um dia antes, Major havia encerrado o mesmo Espaço Favela com uma apresentação acompanhada por banda e repertório ligado ao álbum “Alfa”.
A entrada de Major funciona porque não depende da surpresa de um nome conhecido aparecendo de repente. Existe história musical compartilhada e o público percebe isso. Os dois se aproximam por uma forma de rap que aceita guitarra, peso e referências fora do trap sem transformar essa mistura em espetáculo de novidade. “Só Rock 2” ganha outra pressão diante de uma banda e cria um dos momentos em que Xamã se afasta do tom romântico que domina parte de seus maiores sucessos.
Também existe uma pequena continuidade com o Rock in Rio de 2022. Major RD já havia participado do show de Xamã no Sunset daquela edição, enquanto L7NNON e Brô MC’s completavam um set construído em torno de encontros. Quatro anos depois, a presença dele no Espaço Favela recupera aquela parceria diante de um artista que retorna a um palco anterior de sua própria carreira.
Essa lembrança poderia ganhar um pouco mais de desenvolvimento dentro do show. O encontro acontece bem, mas o formato apertado leva rapidamente à próxima parte. O mesmo vale para outras referências à fase mais crua do rap de Xamã. Há espaço suficiente para lembrá-la, porém pouco para aprofundá-la. A apresentação prefere percorrer a carreira inteira a escolher dois ou três períodos para explorar com calma.
“Leão” carrega uma memória que mudou depois de Marília Mendonça

Entre todos os títulos do repertório, “Leão” possui uma trajetória própria. Xamã escreveu a música para “Zodíaco”, álbum lançado em 2020, e gravou a faixa com Marília Mendonça. A cantora faria depois uma nova versão com arranjo de arrocha, registro lançado postumamente e transformado em um dos maiores sucessos de sua carreira. A música que começou dentro de um disco de rap passou a pertencer também a outro público, carregando inevitavelmente a memória de Marília após sua morte em 2021.
Xamã já falou sobre a dificuldade de cantar “Leão” depois da perda da amiga. Durante quase dois anos, afastou a faixa dos shows porque a emoção comprometia o restante das apresentações. Com o tempo, encontrou uma maneira de incorporá-la novamente e transformar a lembrança em celebração. Essa informação muda a leitura de qualquer execução atual, principalmente num festival onde a música já havia aparecido no Pra Sempre Rap de 2024.
Em 2026, “Leão” representa muito mais do que um hit obrigatório. Ela mostra como uma composição pode escapar completamente do lugar em que nasceu. Uma letra escrita por um rapper de Sepetiba ganhou voz sertaneja, virou fenômeno de streaming e retornou ao repertório de seu autor carregando a presença de outra artista. Poucas músicas conseguem resumir tão bem a facilidade com que Xamã circula entre territórios musicais.
Esse momento traz também uma pausa necessária numa apresentação que, em vários trechos, trabalha aceleração. O público canta com outro peso, e o show permite que uma memória pessoal encontre a memória coletiva. Entre faixas de festa, rimas e novas batidas, “Leão” entrega um registro emocional que não depende de cenografia ou participação surpresa para funcionar.
“Flerte” mostra o presente, mas ainda precisa disputar espaço com os hits
O lançamento de “Flerte” poucos dias antes do festival criava outro ponto de atenção. Com apenas oito músicas, o álbum muda parte da paleta sonora de Xamã ao aproximar o rap de afrobeat, amapiano, dancehall, house e ritmos latinos. Ludmilla, L7NNON, Amabbi, NP e Nomad aparecem entre os colaboradores, enquanto faixas como “Moça” e “Tá de Parabéns” já haviam sido apresentadas ao público antes do disco completo.
No Rock in Rio, músicas desse trabalho apareceram dentro de uma apresentação montada principalmente como retrato de carreira. Isso cria uma disputa difícil para qualquer artista. O disco novo precisa ser apresentado, mas ocupa o mesmo tempo de títulos que milhares de pessoas já sabem cantar. Xamã resolveu a questão mantendo Flerte dentro do fluxo geral, sem transformar o show numa vitrine extensa do lançamento.
A decisão funciona para festival, mas deixa o material recente um pouco subdesenvolvido. O novo disco representa uma mudança real na maneira como Xamã escreve e divide composição com outros autores, além de trazer batidas muito mais voltadas à dança. Seria possível dedicar um bloco maior a essa fase e mostrar com mais nitidez como o rapper de 2026 se diferencia daquele de “Pecado Capital” ou “Zodíaco”. A retrospectiva acaba vencendo essa disputa.
Ao mesmo tempo, essa ausência de domínio do disco novo faz sentido diante da proposta maior. A volta ao Espaço Favela pedia uma conversa com 2019. Ignorar Poesia Acústica, “Malvadão” ou “Leão” para dedicar metade do tempo a um álbum lançado dez dias antes teria quebrado justamente a dimensão afetiva que tornava aquela data diferente.
O Show Funciona Melhor Quando Xamã Assume Que É Feito de Muitas Versões

O Xamã que voltou ao Espaço Favela já não cabe facilmente dentro de uma única definição. Desde 2019, passou pelo rap, hits românticos, pop, funk, televisão, cinema e trabalhos que alteraram inclusive o público que chega aos seus shows. Ele próprio reconheceu antes da apresentação que hoje encontra desde fãs antigos das batalhas até crianças e pessoas mais velhas que o conheceram como ator.
Essa diversidade aparece diante do palco. Parte da plateia reage primeiro às rimas, outra espera “Malvadão 3”, muita gente conhece “Leão” pela gravação de Marília e um grupo mais recente chega pelo trabalho audiovisual. Xamã precisa unir essas audiências sem parecer vários artistas brigando dentro da mesma hora. O show consegue isso principalmente pela personalidade do intérprete, que circula entre canto, rap, humor e improviso com naturalidade.
O problema está na arquitetura, não na entrega. Uma hora deixa trechos acelerados demais e reduz o impacto de algumas transições. A banda poderia ganhar mais momentos próprios, Flerte poderia ser desenvolvido com maior clareza e certas memórias poderiam ficar mais tempo em cena. A apresentação quer contar tanto que às vezes passa rápido pela própria história.
Ainda assim, o retorno ao Espaço Favela encontrou uma imagem poderosa justamente nessa diferença entre passado e presente. Em 2019, Xamã subiu, viu a multidão e chorou porque ainda não sabia o que fazer com aquele tamanho. Em 2026, voltou sabendo exatamente como ocupar o palco, quando deixar o público cantar e como alternar músicas que pertencem a momentos muito diferentes.
A nostalgia existe, mas não transforma o show em monumento ao artista que ele foi. Ela funciona como comparação. O palco permaneceu no mesmo lugar. Xamã chegou muito maior.
Imagem Destacada: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@LaraValença)


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