A busca inatingível por um corpo perfeito. Objetos de desejo. Sonhos de consumo. No final, o que conta é realmente a beleza interior? Ou vale a pena investir tempo, dinheiro e até a saúde para se tornar aquilo que uma sociedade sedenta por ídolos perfeitos busca a todo momento? Se o mangá “Helter Skelter” não te dá as respostas para essas perguntas, ele pelo menos te fará refletir sobre elas.

Lilico é sinônimo de beleza. As garotas em geral querem ser como ela, ter seu penteado, usar o que ela usa, fazer o que ela faz, pois ela é a inspiração para todas. Nas entrevistas é uma pessoa doce e simpática, nas capas de revista, programas de TV e eventos em que aparece encanta a todos com seus talentos, seja como modelo, atriz ou cantora. O que as pessoas não sabem é que existem segredos por trás de todo esse glamour. Segredos obscuros, sinistros, e que diferente de Lilico, não apresentam nada de bonito. Toda essa beleza foi construída a partir de inúmeras plásticas que exigem manutenção e cuidados exaustivos. Isso mexeu com a cabeça e com o ego da jovem, que tal qual uma fruta bonita por fora e podre por dentro, tem em seu interior coisas que fariam qualquer fã ficar decepcionado.

E os problemas começam a aumentar quando as manutenções não são o suficiente para manter seu corpo jovem e belo, e é quando a modelo precisará enfrentar a decadência física e também mental, e seu ego monstruoso faz com que ela entre em uma crise sem igual. Girando em torno dela, que se acha o centro do universo, temos alguns personagens como a assistente de Lilico, Hada, e Okumura, seu namorado; Kozue Yoshikawa, a jovem modelo de 15 anos que desperta ciúmes e inveja na “veterana”; um inspetor que está investigando uma série de suicídios e tráfico de órgãos, que ele acredita serem crimes que estão conectados. Esses são alguns dos personagens que fazem parte desse drama, cheio de intrigas, tragédias e mistérios a serem solucionados.

A maneira como a história é contada é bastante dinâmica. A narração muda de personagem para personagem. Por vezes temos a história contada pela própria Lilico, em outras o inspetor em busca da verdade é quem nos conduz, e em alguns momentos, até manchetes e matérias de jornal fazem a trama avançar, tudo isso mostrando os males de uma sociedade que cria ídolos segundo seu conceito subjetivo e distorcido de beleza, e nessa HQ temos todo esse mundo de fantasias, mentiras, dores e máscaras apresentado como uma fratura exposta. A autora utiliza a linguagem do Mangá para expor toda essa podridão para o leitor. Cada quadro é utilizado com a intenção de mostrar a realidade por trás desse mundo de fantasia. O contraste entre o que Lilico diz nas entrevistas e o que ela vive é algo que nos faz refletir sobre a nossa própria realidade, quantos monstros existem por trás de figuras populares e queridas, idolatradas por multidões…

A autora dessa obra é Kyoko Okazaki, artista que em maio de 1996, logo após o fim da serialização de Helter Skelter na revista “Feel Young”, sofreu um acidente (foi atropelada por um motorista embriagado), e isso a deixaria com várias sequelas físicas e mentais por anos em reabilitação. A história foi publicada em um volume único (tankōbon) pela editora Shodensha em 2003 e além de vencer o prêmio Tezuka, foi ganhadora do Japan Media Arts Festival e em 2008, foi nomeada para a seleção oficial de obras essenciais do Festival Internacional de Histórias em Quadrinhos de Angolema em França. Em 2012 foi lançada uma adaptação para os cinemas em live-action. O filme foi dirigido por Mika Ninagawa, estrelando Erika Sawajiri como Liliko e assim como a modelo na história, Erika também é, além de modelo, cantora e atriz. Infelizmente esse longa-metragem não foi lançado no Brasil, mas o volume único chegou por aqui em 2016 pela editora NewPop. Aconselhável para maiores de 16 anos, é um drama que nos faz refletir um pouco mais sobre a ditadura da beleza que transforma o sonho de muitas pessoas em pesadelo.

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Tom Dutra

Tom Dutra é ator e formado em Artes Visuais. Além disso, faz desenhos e tem dificuldades em dizer se é cartunista, quadrinista, desenhista ou ilustrador! É apaixonado por animações e quadrinhos. Coleciona trilhas sonoras de desenhos animados e é comum encontrá-lo na rua cantando essas músicas.

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