De Macabéa a Júlia e Clara, personagens femininas ganharam novas camadas no cinema nacional e passaram a ocupar diferentes espaços nas narrativas
A presença feminina no cinema brasileiro atravessa diferentes períodos, mas a quantidade de personagens mulheres em posições centrais e a participação feminina nas funções de criação variaram ao longo da história.
Em diferentes momentos, o cinema nacional apresentou mulheres com conflitos, desejos, contradições e trajetórias próprias. Obras como “Mar de Rosas“, “A Hora da Estrela“, “Dona Flor e Seus Dois Maridos“, “Que Horas Ela Volta?” e “Como Nossos Pais” fazem parte dessa trajetória.
Mais recentemente, “Minha Melhor Amiga“, dirigido por Susana Garcia e protagonizado por Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, amplia a discussão ao colocar duas mulheres na faixa dos 50 anos no centro de uma história sobre amizade, maternidade, mudanças e recomeços.
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Macabéa e a mulher invisível
Lançado em 1985, “A Hora da Estrela“, dirigido por Suzana Amaral e baseado no romance de Clarice Lispector, é um dos filmes importantes para compreender diferentes formas de representação feminina no cinema brasileiro.
Macabéa, interpretada por Marcélia Cartaxo, é uma jovem nordestina que deixa Alagoas e vai para São Paulo, onde trabalha como datilógrafa. Sua trajetória é marcada pela pobreza e pela invisibilidade social. A personagem não corresponde ao modelo tradicional de heroína.
Sua história acompanha justamente uma mulher que ocupa pouco espaço aos olhos da sociedade. Ao colocar Macabéa no centro da narrativa, o filme transforma uma personagem socialmente invisibilizada em protagonista.
Dona Flor, desejo e casamento
Lançado em 1976, “Dona Flor e Seus Dois Maridos“, dirigido por Bruno Barreto e baseado na obra de Jorge Amado, também apresenta uma personagem feminina cercada por questões relacionadas a casamento, desejo e sexualidade.
Dona Flor não é construída apenas a partir de sua relação com os homens. Seus desejos e conflitos movimentam a narrativa e ajudam a discutir as expectativas colocadas sobre uma mulher dentro do casamento.
O filme também mostra como a produção nacional utilizou o humor e a sensualidade para abordar questões relacionadas à vida feminina.

Ana Carolina e o olhar feminino atrás das câmeras
A transformação da representação feminina também passa pelas mulheres que assumiram funções de direção.
Um exemplo é “Mar de Rosas“, lançado em 1977 e dirigido por Ana Carolina. O longa acompanha uma viagem familiar marcada por conflitos e tensões e integra a filmografia de uma diretora que construiu parte de sua obra explorando relações familiares e questões ligadas às mulheres. A presença de cineastas mulheres atrás das câmeras amplia a discussão sobre quem conta essas histórias e quais perspectivas chegam ao público.

Central do Brasil: uma mulher diante de uma nova jornada
Em 1998, “Central do Brasil“, dirigido por Walter Salles, colocou Dora, interpretada por Fernanda Montenegro, no centro de uma história marcada por encontros, afetos e transformação.
Dora trabalha escrevendo cartas para pessoas que não sabem ler ou escrever na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Sua rotina muda quando ela passa a acompanhar Josué, um menino que perdeu a mãe e procura pelo pai.
Os dois embarcam em uma viagem pelo interior do Brasil, e a experiência transforma a relação entre eles. Dora está longe de ser uma protagonista construída como uma heroína tradicional. É uma mulher adulta, solitária, com contradições e atitudes questionáveis, que passa por mudanças ao longo da narrativa.
A personagem também mostra uma possibilidade importante de representação feminina: sua história não depende de um relacionamento amoroso para existir. O eixo da narrativa está na relação construída com Josué e na transformação provocada pela viagem.
A atuação de Fernanda Montenegro tornou Dora uma das personagens mais marcantes do cinema brasileiro. O filme também ganhou projeção internacional e recebeu duas indicações ao Oscar, incluindo a indicação de Montenegro a Melhor Atriz.
Com Dora, “Central do Brasil” apresenta uma mulher que começa a história marcada pelo distanciamento e termina atravessada por uma experiência de afeto e transformação.
Val e Jéssica: duas mulheres, duas realidades
Em 2015, Anna Muylaert lançou “Que Horas Ela Volta?“, colocando duas mulheres de classes sociais diferentes no centro de uma mesma história.
Regina Casé interpreta Val, uma empregada doméstica nordestina que trabalha na casa de uma família de classe alta em São Paulo. Sua filha Jéssica, interpretada por Camila Márdila, chega à cidade para prestar vestibular e passa a questionar a hierarquia existente naquela casa.
A relação entre mãe e filha permite discutir trabalho doméstico, maternidade, desigualdade social e as possibilidades de mudança de vida. O filme mostra que representar mulheres também significa considerar as diferenças de classe, origem e geração que atravessam suas experiências.
Vitória: uma mulher idosa no centro de uma história de coragem
Em 2025, o cinema brasileiro levou às telas a história real de Joana da Paz em Vitória, dirigido por Andrucha Waddington e protagonizado por Fernanda Montenegro.
No filme, Montenegro interpreta Dona Nina, uma aposentada que, incomodada com a violência em seu bairro, decide registrar com uma câmera, da janela de seu apartamento, a movimentação de uma quadrilha de traficantes. As imagens são utilizadas para denunciar os crimes e acabam colocando a personagem em uma situação de risco.
A história é inspirada na trajetória de Joana da Paz, que em 2005 passou a filmar atividades criminosas nas proximidades de sua casa, em Copacabana, no Rio de Janeiro. O caso posteriormente foi transformado em livro pelo jornalista Fábio Gusmão e adaptado para o cinema.
A escolha de uma mulher idosa como protagonista também amplia as possibilidades de representação feminina no cinema. Dona Nina não ocupa uma posição secundária na narrativa: é a decisão dela que desencadeia os acontecimentos e conduz a história.
O filme ainda ganhou destaque nas bilheterias. Em seu primeiro fim de semana, “Vitória” levou 218 mil pessoas aos cinemas e arrecadou R$ 4,7 milhões, tornando-se a maior estreia de um filme nacional em 2025 naquele momento.
Com Dona Nina, “Vitória ” apresenta outra possibilidade de protagonismo feminino: uma mulher madura que, diante de uma realidade marcada pela violência, toma uma decisão e passa a conduzir os acontecimentos de sua própria história.
A mulher entre a maternidade, a carreira e os próprios desejos
Em “Como Nossos Pais“, de Laís Bodanzky, lançado em 2017, Maria Ribeiro interpreta Rosa, uma mulher que tenta conciliar maternidade, casamento, carreira e a relação com a própria mãe.
O filme acompanha uma personagem que vive conflitos pessoais e familiares e questiona as expectativas relacionadas aos diferentes papéis que ocupa.
A narrativa ajuda a mostrar uma representação feminina menos limitada a uma única função. Rosa é mãe, esposa, profissional e filha, mas também possui desejos e conflitos próprios.

Minha Melhor Amiga coloca mulheres de 50 anos no centro
Em 2026, “Minha Melhor Amiga” leva essa discussão para uma produção contemporânea protagonizada por duas mulheres maduras.
Dirigido por Susana Garcia e estrelado por Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, o filme acompanha Júlia e Clara, duas amigas que enfrentam uma nova fase da vida depois que suas filhas viajam para Portugal para um intercâmbio.
A situação provoca o chamado “ninho vazio” e leva as amigas a embarcarem em uma viagem pela Europa. A história mistura amizade, maternidade, relacionamentos, família e a possibilidade de descobrir novos caminhos depois dos 50 anos.
A escolha de colocar duas mulheres dessa faixa etária no centro da comédia também amplia a discussão sobre quais histórias são consideradas interessantes para o cinema. Em vez de aparecerem apenas como mães ou personagens secundárias, Júlia e Clara conduzem a narrativa e enfrentam suas próprias aventuras.

O filme que levou milhões de brasileiros aos cinemas
Além da discussão sobre representação, “Minha Melhor Amiga” também ganhou destaque pelo desempenho nas bilheterias.
O longa estreou em 3 de setembro de 2026 e alcançou mais de 2 milhões de espectadores em uma semana e meia. Poucos dias depois, chegou à marca de 3 milhões de espectadores, segundo dados divulgados pela Ancine e reportados pela Folha de S.Paulo.
A produção também estabeleceu um grande circuito de lançamento: foram 1.531 salas em 773 cinemas de 436 cidades no início da exibição, segundo a Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas.
O resultado coloca o filme como um exemplo recente de que histórias protagonizadas por mulheres maduras também podem alcançar grandes públicos.
A representação também depende de quem está atrás das câmeras
A presença feminina na tela, porém, é apenas uma parte da discussão. Dados do Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro mostram que a participação das mulheres nas funções de liderança da produção audiovisual ainda é menor que a dos homens.
Segundo dados referentes às produções de 2023, 231 longas-metragens brasileiros foram dirigidos exclusivamente por homens, enquanto 52 foram dirigidos exclusivamente por mulheres. No roteiro, foram 165 produções com homens exclusivamente na função contra 41 com mulheres.
No conjunto de séries e filmes brasileiros analisado pelo levantamento, as mulheres representavam 17% da direção. Os números mostram que a discussão sobre representação feminina não termina diante das câmeras, ela também envolve quem escreve os roteiros, dirige as produções e participa das decisões criativas.
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De personagens femininas a histórias sobre mulheres
A trajetória do cinema brasileiro mostra que não existe uma única maneira de representar uma mulher.
Macabéa, de A Hora da Estrela, é marcada pela invisibilidade social. Dona Flor, de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, permite discutir desejo, casamento e sexualidade, Val e Jéssica, de “Que Horas Ela Volta?”, colocam as diferenças de classe e as relações de trabalho doméstico no centro da narrativa.
Vitória apresenta outra possibilidade: uma mulher idosa que decide registrar, da janela de seu apartamento, a movimentação de traficantes e policiais corruptos. Inspirado na história real de Joana da Paz, o filme transforma essa experiência em uma narrativa conduzida pela personagem interpretada por Fernanda Montenegro.
Em 2026, “Minha Melhor Amiga” acrescenta uma nova perspectiva a esse percurso. Júlia e Clara, interpretadas por Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, são duas mulheres na faixa dos 50 anos que atravessam uma fase de mudanças depois que suas filhas deixam o país para estudar. A amizade, a maternidade, os relacionamentos e os desejos pessoais passam a ocupar o centro da história.
São personagens de épocas, idades e realidades diferentes. Algumas enfrentam desigualdade social; outras lidam com maternidade, trabalho, envelhecimento, relacionamentos, violência ou a necessidade de recomeçar.
Essa diversidade mostra que a representação feminina no cinema brasileiro não se resume a colocar uma mulher como protagonista. Também envolve permitir que essas personagens tenham suas próprias histórias, conflitos, escolhas, contradições e diferentes maneiras de enxergar a vida.
De Macabéa a Vitória, passando por Val, Jéssica, Júlia, Clara e tantas outras personagens, o cinema brasileiro apresenta diferentes experiências femininas e amplia os caminhos possíveis para contar histórias sobre mulheres.
É nessa diversidade de experiências que a representação feminina no cinema brasileiro continua se transformando.
Imagem destacada: Divulgação /Sony Pictures


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