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Crítica

Crítica: 1917

Imagem: Divulgação/Universal Pictures

Um vasto campo verdejante com uma solitária árvore ao fundo. Aos poucos, o plano se abre e são revelados dois jovens em fardas militares descansando sob o sol: os cabos Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman). Um oficial se aproxima e avisa que os jovens devem ir ao encontro do General Erinmore (Colin Firth) imediatamente. Os dois praças se levantam e seguem em direção ao local designado. Durante esse trajeto, os homens conversam amenidades e comentam o cotidiano no front. Enquanto isso, o ambiente campestre bucólico dá lugar a um grande acampamento, que por sua vez, desemboca na entrada de uma trincheira. Os cabos seguem pelos tortuosos e estreitos corredores apinhados de sujeitos fardados empunhando armas quando, enfim, chegam ao abrigo onde se encontra o General. O ambiente é escuro e apertado, e os presentes estão bastante sérios. Sem enrolação, Schofield e Blake recebem a sua missão: eles devem atravessar a terra-de-ninguém e entregar uma mensagem ao Coronel Mackenzie (Benedict Cumberbatch), cancelando o ataque aos alemães, marcado para o amanhecer do dia seguinte.

É assim que, em cerca de cinco minutos, o diretor Sam Mendes apresenta tudo que o espectador precisa saber sobre “1917”: o objetivo das personagens principais; o artifício do plano-sequência; a dinâmica alternante entre momentos de calmaria e beleza, e outros, caóticos e infernais. Esse trecho inicial é uma introdução exemplar à experiência proposta pelos realizadores. Entretanto, com o passar do tempo, chega-se à seguinte conclusão: Mendes tem uma ideia clara de onde quer chegar e como, porém é questionável se os métodos adotados por ele são os melhores.

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O grande chamariz de “1917” é o fato de parecer ter sido totalmente gravado em plano-sequência, uma estratégia tão utilizada na última década que já virou um verdadeiro clichê da temporada de Oscar, cada vez menos considerado um artifício à serviço das obras e mais uma maneira “fácil” de acumular prêmios. No caso do longa de Mendes, em teoria, há alguns fatores que tornam a escolha pela “ausência” de cortes minimamente intrigantes: o primeiro é o fato da direção de fotografia estar a cargo de Roger Deakins, um dos nomes mais respeitados do ramo e que nunca havia feito um trabalho similar a esse; e o segundo é a intenção de Mendes em fazer de “1917” uma espécie de “filme-relógio”, em que o plano-sequência serve como prova de que o tempo diegético vivido pelas personagens é o mesmo vivenciado pelo público no cinema.

Levando isso em consideração, é frustrante perceber que o artifício acaba sendo uma faca de dois gumes. Em determinados momentos, a escolha pelos planos sem cortes se justifica: a já citada sequência de abertura; o trecho situado na cidade de Écoust incendiada pelos alemães, em que o plano-sequência aliado à combinação de escuridão e chamas conjuram um sentimento de angústia e terror, dando de fato à guerra uma aura de pesadelo; o momento em que Mendes e Deakins, em vez de acompanharem as personagens por dentro de uma casa, preferem chamar atenção para um grupo de soldados urinando no jardim, mostrando de maneira inesperada elementos do dia-a-dia daqueles na linha de tiro; a bela cena em que um pelotão, sentado numa clareira, ouve um cabo cantar uma música tradicional antes de se preparar para o embate. São momentos em que a fluidez ocasionada pela falta de cortes apenas exacerba o sentimento que Mendes pretende passar, seja ele tranquilidade ou desespero. Em contrapartida, há trechos em que parece que o filme está se desdobrando para conseguir justificar a ilusão de plano-sequência, tornando-se não só repetitivo (quantas vezes o protagonista explica a missão dele para alguém?), como também enfadonho.

No geral, fica a impressão de que, na tentativa de ser tanto uma experiência visceral quanto um relato sobre as dores da guerra, “1917” acaba ficando pelo meio do caminho. Se fosse um longa restrito a 90 minutos, talvez não sofresse tanto com seu ritmo errante e conseguisse manter o espectador imerso naquele ambiente do início ao fim. Todavia, ao se arrastar por duas horas, não é difícil desejar, vez ou outra, uma elipse temporal. Por sua vez, quanto ao conteúdo, percebe-se que Mendes e sua co-roteirista Krysty Wilson-Cairns acham seu roteiro muito mais profundo do que efetivamente é. Não há absolutamente nada de novo narrativamente e, se há um ou outro momento comovente, é muito mais por responsabilidade dos atores – em especial MacKay e Richard Madden (incrível em pouquíssimo tempo em tela) – do que do texto em si.

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No final das contas, “1917” tem alguns momentos e atuações que impedem o filme de ser somente um exercício estético vazio. Entretanto, é também difícil vê-lo como muito mais do que uma versão séria e hollywoodiana de uma prova das Olimpíadas do Faustão.


Imagens e vídeo: Divulgação/Universal Pictures

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Passava tardes de final de semana na locadora. Estudou Cinema. Agora escreve sobre filmes.

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