Crítica (2): Coringa

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Em certo momento de “Coringa”, Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) invade uma sessão de gala de “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin, disfarçado de lanterninha. Do lado de fora do Wayne Hall (uma espécie de Lincoln Center de Gotham City), uma multidão com máscaras de palhaço protesta contra as declarações recentes de Thomas Wayne (Brett Cullen), pai de Bruce (o futuro Batman) e candidato a prefeito. Do lado de dentro do prédio, homens e mulheres usando vestidos longos e smokings divertem-se com as piadas de Chaplin sobre a exploração do proletariado. Ora, o que para a elite de Gotham é uma comédia do absurdo, para os manifestantes – e para Fleck – não passa da realidade cotidiana; e essa disparidade de visões e as lideranças que delas surgem são o centro do novo filme de Todd Phillips.

Seguindo o ponto-de-vista do longa, o Coringa é fruto do capitalismo desumanizado e do sucateamento do Estado de bem-estar social promovido pelo neoliberalismo. Não à toa a trama se passa em 1981, primeiro ano do primeiro mandato de Ronald Reagan, presidente estadunidense que, junto de Margaret Thatcher no Reino Unido, foi responsável pela disseminação de políticas neoliberais no mundo ocidental. Arthur Fleck trabalha como palhaço, fazendo bicos que vão desde segurar cartazes em porta de lojas até animar crianças doentes em hospitais, numa premonição da gig economy dos dias atuais. Além disso, a partir de determinado momento da trama, Arthur perde seu acesso a remédios e consultas psiquiátricas graças aos cortes no Serviço Social. Dessa forma, Phillips e seu co-roteirista Scott Silver argumentam que esses fatores socioeconômicos favorecem o surgimento de uma figura como o Coringa, totalmente desacreditada nas instituições e que encontra no caos e na misantropia formas de desestabilizar o Sistema e, assim, derrubá-lo. Portanto, nesse sentido, os realizadores entendem e, à certa medida, até simpatizam com Fleck e seu alter-ego, vendo neles um caso extremo de desesperança.

Entretanto, um dos pontos de debate mais acirrados sobre “Coringa” seria a sua glorificação de um indivíduo incel. Sem dúvidas, Arthur possui características que o aproximam desse grupo de ódio online, especialmente à medida em que ele se torna o Coringa propriamente dito, porém Phillips faz questão de frisar as particularidades da situação do protagonista e questionar determinadas atitudes suas. O relacionamento com Sophie (Zazie Beetz), mãe solteira e vizinha de Arthur, por exemplo, já é iniciado a partir de uma atitude repreensível do protagonista (ele a segue até o trabalho) e, posteriormente, é totalmente recontextualizado pelo filme.

Enquanto isso, na relação de Arthur com a mãe, os roteiristas apontam de forma mais contundente as contradições da personagem principal, em que ela valoriza o ato de ódio em lugar de compreender as ações de uma semelhante sua. No diário de Arthur há a seguinte anotação: “o mais difícil de ter uma doença mental é que as pessoas querem que você aja como se não tivesse uma”. De certa forma, pode-se entender essa frase como a base na qual o Coringa se sustenta, usando a sua condição como justificativa para seus atos, por mais horríveis que sejam. Contudo, ela também poderia ser entendida a partir de um lugar de empatia, do qual Arthur poderia, no mínimo, entender as atitudes repreensíveis de sua mãe. Sem entrar muito em detalhes (e dar spoilers), percebe-se aí a diferença entre o protagonista e sua mãe: o primeiro usa de sua condição como carta-branca para espalhar o ódio, entendendo até mesmo seu tratamento como uma tentativa da sociedade de calar a sua voz; por outro lado, por mais que a doença tenha levado Penny (Frances Conroy) a fazer vista-grossa para os abusos perpetrados contra ela e seu filho, essa mesma doença também lhe tirou as condições de discernimento entre amor e dor, tornando-a uma vítima incapaz de reagir e, até mesmo, compreender a situação em que está inserida.

Ao mesmo tempo, Phillips cria um paralelo entre Arthur Fleck e Thomas Wayne, uma vez que ambos se tornam símbolos dos desejos e insatisfações do estrato social a que pertencem aliados a uma personalidade narcísica. Wayne é apresentado como uma figura estilo Donald Trump, magnata que ingressa na política com o discurso de querer ajudar os pobres (“ele é o único que pode nos ajudar”, diz Penny Fleck), ao mesmo tempo em que lhe interessa financeiramente a privatização de serviços oferecidos, até então, pela esfera pública. Enquanto isso, Arthur é indiretamente alçado ao status de vigilante dos pobres pela mídia sensacionalista, um homem vestido de palhaço que sai pelas ruas matando gente rica (qualquer semelhança com o homem vestido de morcego que prende bandidos não é mera coincidência). Inicialmente, Arthur é pego de surpresa com a aclamação popular acerca de seu ato, entretanto à medida em que ele se torna o Coringa, percebe-se uma maior consciência pessoal quanto à sua influência sobre as massas e à necessidade de manipular a sua própria imagem perante seus seguidores. Portanto, pode-se entender o Coringa mais como uma celebridade que soube capturar o zeitgeist (assim como Thomas Wayne) do que um líder político realmente interessado em melhorar a vida de alguém.

Apesar de às vezes se perder em um tom excessivamente miserabilista e em simbologias fáceis (a mão pesada de Phillips ao contrastar o tempo inteiro a desgraça de Arthur com imagens alusivas ao riso e à felicidade chega a ser cômica, no mal sentido), “Coringa” é um interessante retrato da ascensão de uma figura populista ao poder, ancorado por uma ótima performance de Joaquin Phoenix, que transita entre a inocência infantil e a confiança de um porta-voz das massas.


Imagens e vídeo: Divulgação/Warner Bros. Pictures

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