Crítica (2): It – Capítulo Dois

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Ainda no início de “It – Capítulo Dois”, há uma sequência em que o público é reapresentado aos membros do Clube dos Otários 27 anos após os acontecimentos do primeiro filme. Mesmo contando com momentos divertidos aqui e acolá (em especial a breve aparição do diretor e crítico Peter Bogdanovich), esse trecho tem como objetivo expor que, apesar das promessas de mudança feitas décadas antes, as personagens acabaram levando seus vícios e dilemas da juventude para a vida adulta. Sob um aspecto profissional, essa não-evolução foi benéfica, porém no âmbito privado, percebe-se a recorrência dos mesmos comportamentos e relacionamentos prejudiciais de outrora. Curiosamente, o problema enfrentado pelas personagens também acomete o filme em que elas estão inseridas: “It – Capítulo Dois” basicamente repete os mesmos erros e acertos do longa anterior.

Pelo lado positivo, o filme de Andy Muschietti possui um bom grupo de protagonistas, cada um com características bem definidas e objetivos razoavelmente delineados. Logo, assim como no primeiro filme, a continuação tem seus melhores momentos quando investe na dinâmica entre as personagens, explorando as particularidades de cada uma, seja para efeito cômico ou dramático. Não à toa, o primeiro ato é o mais bem-sucedido do longa, conseguindo equilibrar com destreza a reintrodução dos Otários, o restabelecimento do relacionamento entre eles (a ótima cena no restaurante chinês) e a progressiva inserção da Coisa no ambiente que os cerca, estabelecendo os desafios que estão por vir.

Entretanto, os realizadores encontram dificuldades em manter essa eficiente distribuição ao longo de todo o filme. Quando os ataques cometidos pela Coisa – e pela sua forma mais famosa, o palhaço Pennywise (Bill Skarsgård) – se tornam mais frequentes e atingem diretamente as personagens principais, “It – Capítulo Dois” se torna mais raso e menos envolvente. Repetindo um problema do longa de 2017, a continuação não consegue encontrar espaço para desenvolver satisfatoriamente todos os membros do Clube dos Otários, o que torna uma personagem como Mike (Isaiah Mustafa), por exemplo, menos um ser humano e mais um dispositivo narrativo. Além disso, até mesmo as tramas que efetivamente recebem mais espaço terminam caindo em uma das duas opções: uma repetição de algum arco dramático do filme anterior, como o triângulo amoroso entre Bill, Beverly e Ben (James McAvoy, Jessica Chastain e Jay Ryan, respectivamente); ou um dilema inédito que é pouco desenvolvido, caso da homossexualidade de Richie (Bill Hader) – o que é ainda mais decepcionante ao se considerar que a sequência de abertura do longa é um violento crime de ódio contra um casal gay.

Além disso, o Clube dos Otários passa grandes trechos do filme separado, com cada personagem realizando a sua missão individual e revivendo os seus pesadelos do passado. Consequentemente, perde-se muito da interação entre os protagonistas – especialmente no meio do longa, quando uma sucessão de sequências de horror aliada a uma profusão de flashbacks resulta em um ritmo cansativo, carente de eventuais respiros. Felizmente, as personagens voltam a se reunir mais constantemente no terceiro ato, ainda que a megalomania do clímax impeça a dinâmica de se restabelecer de forma tão bem-sucedida quanto na primeira hora de projeção.

Ao fim, tem-se a impressão de que “It – Capítulo Dois” é um filme, simultaneamente, muito curto e muito longo. Por um lado, um formato expandido (minissérie, por exemplo) seria mais propício para explorar de forma densa todos os questionamentos (psicológicos e sociais) levantados e dar a cada personagem a possibilidade de ser devidamente desenvolvido. Permitiria também estabelecer um ritmo mais eficiente, que conseguisse alternar confortavelmente entre momentos de horror e cenas de construção dramática.

Por outro lado, o longa utiliza parte de seus (generosos) 169 minutos em cenas e subplots que pouco acrescentam ao filme, como o retorno do bully Henry Bowers (Teach Grant), por exemplo. Mesmo sendo uma trama retirada do livro de Stephen King e que inicialmente parece promissora, no final das contas, dentro do longa, ela não passa de uma “encheção de linguiça” que poderia facilmente ter sido excluída da adaptação.

Apesar desses problemas, “It – Capítulo Dois” é um entretenimento perfeitamente aceitável – ainda que ligeiramente inferior ao primeiro episódio -, graças ao entrosamento entre os atores e o apelo de suas personagens.


Imagens e vídeo: Divulgação/Warner Bros. Pictures

Crítica (2): It - Capítulo Dois
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