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CríticaFilmes

Crítica (2) – Parasita

Avatar de Mauro Machado
Mauro Machado
5 de novembro de 2019 3 Mins Read

Parasita

Algumas obras possuem o mérito de apresentar enorme densidade e camadas de discussão para os temas que apresenta. O sul-coreano “Parasita é um deles, que mesmo deixando sua mensagem sempre evidente desde o início, o faz com sofisticação e maestria. Observamos a vista para a rua tida de uma janela da moradia de uma família pobre, sem que nenhum personagem seja apresentado já nesses primeiros segundos. Contudo, o espectador ali fica ciente que é aquela perspectiva que o filme mostrará, que a visão partirá do referencial daquela habitação e da relação que seus habitantes tem com o mundo. “Parasita” trata de desigualdade social, do conflito de classes sociais e do capitalismo selvagem tendo uma família desempregada e desfavorecida como protagonista. Não apenas ela sozinha, como ela perante outros indivíduos pobres e, principalmente, perante a elite de seu país.

Aliás, se a interação da família pobre com a família rica toma grande parte do tempo de projeção, é nessa dinâmica que vemos os contrastes sociais muito fortemente. Tanto em termos metafóricos quanto propriamente visuais. A direção dá tons claustrofóbicos na medida em que a família pobre é sempre retratada muito junta, com a câmera perto dos atores, em planos muito fechados. Em suma, toda a mise-en-scene confere esse caráter quase insalubre na residência dos personagens principais. A habitação, localizada num bairro miserável da Coréia do Sul, é sempre retratada com tons esverdeados e acinzentados, como se ali a melancolia e a falta de esperança predominasse. O design de produção, por sua vez, retrata o ambiente muito amontoado de objetos e de sujeira para reforçar as condições precárias e dimensionar sua intensidade. Já a família de elite mora numa enorme mansão com muito espaço – interno e externo – e num clima limpo, quase esterilizado. Não bastasse isso, há uma diferença visual bem interessante no que diz respeito às janelas. Se a janela dos menos favorecidos dá para a rua, para o mundo, a burguesia coreana é voltada para seu próprio quintal. Forma perspicaz e eficiente de demonstrar quem são aqueles que verdadeiramente encontram mais dificuldades e problemas no mundo externo.

Parasita 3

Vale mencionar que, ao menos num primeiro momento, os protagonistas são filmados mais ao longe, em planos mais fechados, quando nos ambientes da família rica. Isso não apenas serve para destacar o tamanho e proporção desses lugares como também ressalta o tanto que aquelas pessoas se encontram fora de seu contexto, deslocadas do lugar de origem. Diferentemente de seu ambiente doméstico, quando tudo é muito visto de perto, onde não há muito espaço sobrando. É um toque de extremo bom gosto por parte de Bong Joon-Ho, diretor do longa.

No mais, é importante ressaltar a fluidez com que “Parasita” progride durante a projeção. É um filme bastante acessível que nunca abre mão de profundidade para tal, assim como também não subestima seu público. Transita entre diversos gêneros cinematográficos como comédia, suspense e terror de forma orgânica sempre prendendo a atenção e se tornando imprevisível em alguma medida. Tudo isso bem amarrado por um roteiro que não deixa pontas soltas e é inteligente, funcionando por meio de várias pistas e recompensas, de pequenos detalhes aparentemente banais mas que mostram grande importância no todo. Contando ainda com algumas viradas que são bem colocadas, sem nenhum tipo de exagero. Além disso, o elemento da montagem que gera interessantes paralelismos mas que sabe transitar entre cenas e ambientes com elegância e que corta momentos que em nada poderiam acrescentar, a não ser puro didatismo por parte dos realizadores.

“Parasita” é brilhante e deve ser assistido por todos aqueles de forte senso crítico para com o mundo. É ousado e muitíssimo bem realizado, mesmo que carregado de mensagens simples e isso talvez seja sua característica mais interessante.


Imagem e vídeo: Divulgação/Pandora Filmes

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Mauro Machado

Ser envolto em camadas de sarcasmo e crises existenciais. Desde 1997 tentando entender o mundo que o cerca,e falhando nisso cada vez mais.

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