Crítica (2): Sem Fôlego

Desencontros do som

Quem nunca pensou em fugir de casa? A busca pelo “seu lugar” no mundo é uma das grandes questões humanas, sendo estudado e filosofado por inúmeros pensadores. Essa atitude já rendeu inúmeras produções literárias e audiovisuais. Cada uma a sua maneira, tenta entreter seu espectador trazendo uma narrativa de descobertas, frustrações e etc. O novo filme do diretor Todd Haynes, “Sem Fôlego” (Wonderstruck) não é diferente, e essa busca é retratada pela visão de duas crianças.

Passando em duas décadas diferentes, 20 e 70, temos uma menina e um menino que tentam entender quem são. Em 1927, Rose (Millicent Simmonds) é uma menina carinhosa e surda de pais separados. Ela mora com seu pai, Dr. Kincaid (James Urbaniak), mas devido a frieza dele, ela se rebela e foge de casa para encontrar sua mãe, a famosa atriz Lillian Mayhew (Julianne Moore), e seu irmão, Walter (Cory Michael Smith) em Nova York. Em 1977, Ben (Oakes Fegley) perde sua mãe, a bibliotecária Elaine (Michelle Williams) em um incêndio. Ele que sempre questionou quem era seu pai, encontra um livro antigo com um bilhete com anotações que poderiam ajudá-lo a descobrir. Porém, durante a tentativa de ligar para o número de telefone que encontrou, um raio cai próximo a sua casa e ele acaba perdendo a audição. Ao acordar, ele descobre o que aconteceu e decide fugir para descobrir quem é seu pai.

O roteiro foi escrito pelo estreante Brian Selznick, autor do best-seller de mesmo nome, no qual o filme se baseia. Esquecendo completamente o livro, embora não seja exatamente possível, temos uma narrativa simples e objetiva. Contudo, ela se perde ao se tornar um pouco longa demais. Porém, esse ponto negativo também deve ser agregado a direção e a montagem de Affonso Gonçalves. Seus diálogos, são comuns e de fácil assimilação a qualquer público, principalmente o infanto-juvenil. O livro, que grande parte da história é contada com as belíssimas ilustrações do próprio Brian, transformou-se em um roteiro de ações e expressões. Tal feito deu uma dinâmica interessante ao resultado final com o trabalho da direção de atores.

O diretor, Todd Haynes, brinca com esses trechos sem falas trazendo as sequências de 27, como em um filme mudo. Típico da época, tal efeito gera uma nostalgia interessante a espectadores mais velhos e/ou interessados nesses filmes antigos. Nesse ponto também podemos ver a qualidade na sua direção de atores, conduzindo-os a uma atuação mais teatral, como o feito antigamente, mas sem exageros. Ele, junto a montagem e mixagem de som de Drew Kunin, desenvolvem cortes e passagens que conectam as narrativas. Assim o resultado torna-se uma espécie de “uníssono” para seu desenvolvimento. Também é valido ressaltar em seu trabalho as contemplações de época, onde consegue desenvolver planos que destacam duas Nova Iorques bem diferentes.

Dito isso, não podemos deixar de parabenizar o excelente trabalho da equipe de arte comandada pelo designer de produção Mark Friedberg e os diretores de arte, Ryan Heck e Kim Jennings. Junto a figurinista Sandy Powell e a equipe de caracterizadores, além de ótimas locações e cenários, temos inúmeros figurantes representando bem o movimento social de cada distinta década. Ressaltando essa dualidade, ainda podemos acrescentar a direção de fotografia de Edward Lachman. Ele brinca, no melhor sentido da palavra, com a estética Noir e o Expressionismo Alemão em 27, enquanto em 77 traz cores vibrantes tendendo ao amarelo, com forte saturação e contraste.

Nessa produção temos uma perigosa faca de dois gumes. E nesse caso é a trilha sonora de Carter Berwell. Não podemos negar o quão lúdica e bem estruturada são suas composições para “Sem Fôlego”. Mas se tratando de uma produção que aborda a surdez chega a ser irônico tal coisa. Sabemos que há vários deficientes auditivos que conseguem ouvir a música pela vibração sonora, mas ainda assim dificilmente terão a mesma experiência ao ouvir tão belas composições. No casting montado por Laura Rosenthal temos dois nomes reconhecidos da mídia, Julianne Moore e Michelle Williams, porém suas participações são o que podemos dizer popularmente de “OK” ou indiferente. Já os destaques ficam para as crianças, em especial a pequena atriz Millicent Simmonds, que de fato é surda. Ela sim faz toda diferença na produção, capaz de nos encantar na mesma facilidade que piscamos os olhos.

No geral, “Sem Fôlego” em nenhum momento justifica diretamente seu título, mas ainda consegue ser melhor que “Maravilhados”, a tradução literal do nome original. Ela é uma produção que entretém e encanta, mas também consegue ser um pouco cansativa devido sua duração e sequências muito longas. Sua validez vem pelo despertar de reconhecimento, por nos lembrar de desejos de infância e principalmente por nos agraciar com uma estrutura leve e rica historicamente.

Crítica (2): Sem Fôlego
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