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Crítica

Crítica (2): Vergel

“Todos nos movemos, cada um à sua maneira, ao seu tempo, ao seu ritmo.”

Trajada com um longo vestido vermelho, Ana Clara (Camila Morgado) repousa em um divã. Ao passo que a câmera se aproxima de um close, à vividez de sua roupa opõe-se a desolação de seu semblante. O corpo pesaroso, estendido sobre a mobília, parece integrar-se à arquitetura da cena. Se isso não ocorre, contudo, é graças ao movimento do plano. Durante a abertura de “Vergel” (2017), Kris Niklison resgata a figura da protagonista, antes dissoluta em meio ao fundo. Em poucos minutos, portanto, a cineasta apresenta suas credenciais.

Vinda das artes performáticas, Niklison domina, como visto, uma vasta gama de recursos imagéticos – desde o expressivo figurino até a dinâmica fotografia. Paradoxalmente, porém, não parece confiar em suas construções. Entender essa afirmativa passa, sobretudo, pelo esclarecimento do título, vocábulo partilhado entre as línguas portuguesa e espanhola.

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“Vergel”, parte do campo semântico de “jardim” e “pomar”, refere-se às plantas do apartamento onde transcorre a narrativa. Emprestado nas férias, o imóvel torna-se residência temporária após a morte de um ente querido. Para retirar o corpo da Argentina e voltar ao Brasil, afinal, Ana Clara enfrenta um longo e burocrático processo.

Compreendido seu significado lexical, de que modo o vergel relaciona-se com o longa-metragem? A resposta é simples: assim como as plantas, a protagonista precisa de cuidados. Deprimida, no entanto, falha em ambas as atribuições. Uma despretensiosa metáfora, certo? Errado. Descrente na força dos planos individuais, Niklison acumula inúmeras cenas de Morgado sob águas. O elemento, tanto revigorador quanto sufocante – quando em excesso -, une a personagem humana às suas contrapartidas vegetais.

Não bastasse essa reiteração, a cineasta busca, ainda, novas simbologias. Em determinada cena, uma lesma caminha sobre o rosto de Ana. A relação entre a vagarosidade do animal e a do processo de luto parece óbvia, certo? Errado. O roteiro, também escrito pela diretora, faz questão de prover um significado, como se as imagens nada dissessem.

Vítima de um texto verborrágico, cumpre a Camila Morgado (“Olga”“O Animal Cordial”) e seu “portunhol” a resolução dos principais conflitos. Apesar do visível esforço da atriz, sozinha durante boa parte do filme, pouco se desenvolve até a chegada de uma nova personagem. A vizinha, interpretada pela ótima Maricel Álvarez (“Biutiful”“Minha Amiga do Parque”), assume dupla função: tanto cuidar das plantas quanto – principalmente – de Ana Clara.

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Nesse momento, Kris Niklison repete, enfim, a competência do primeiro plano. Entre olhares e silêncios, sua direção mostra genuíno interesse pelos corpos filmados. Se restava alguma dúvida, a argentina encerra o longa-metragem com uma bela sequência, mais um indício de uma promissora cineasta. Completamente envolvida com o projeto, porém, – além da direção e do roteiro, ela também atuou, produziu, filmou, montou e foi responsável pela arte -, Niklison carece de distanciamento. Como resultado, “Vergel” resulta antes em um cartão de visitas do que em um projeto acabado. Trata-se, de todo modo, de uma ousada experiência, ainda mais para uma estreia no universo ficcional.

* Depois de ser exibido no Festival do Rio 2017, o filme estreia em circuito comercial dia 7 de fevereiro, quinta-feira.

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Fotos e Vídeo: Divulgação/ArtHouse

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Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação, e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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