Quando “The Last of Us” foi lançado, em 2013, houve uma grande revolução no mundo dos vídeo-games. Nada ali era necessariamente inovador, já que todas as ideias apresentadas eram recicladas, mas a forma com a qual apareciam mexeu com o público e com a crítica. É preciso dizer que esse estréia não afetou somente o mundo dos games, uma vez que acabou sendo refletida também em quadrinhos e no cinema. Afinal, a relação de um adulto com uma criança em mundo pós-apocalíptico não era novidade para ninguém, mas a forma com a qual ela se desenrolava com o tempo era envolvente e muito real para quem interagia com ela. Esse é o cerne que “A Luz no Fim do Mundo” tenta alcançar, dentro do contexto que propõe.

A relação entre Rag (Anna Pniowsky) e seu pai (Casey Affleck) é comovente e isso se dá muito por conta da premissa inicial do longa, já que a menina é uma das últimas mulheres existentes no mundo. Premissa interessante e que faz com que existam dinâmicas que até recorrem aos clichês, porém que possuem seus diferenciais. Dessa forma, o senso de urgência que dá o tom do filme juntamente com a necessidade da menina de esconder seu gênero biológico são fatores bem utilizados aqui. Ainda nesse sentido, o fato de não sabermos exatamente o que ocorreu durante a pandemia anterior aos eventos do filme deixa o tom mais misterioso e intrigante, permitindo ao espectador elaborar hipóteses para as lacunas presentes. Por outro lado, alguns flashbacks são usados de modo bastante preguiçoso, elucidando momentos e passagens que não acrescentam muito para a produção. Só tornam tudo mais didático e mais óbvio, o que poderia facilmente ter sido poupado pelo roteiro e pela montagem.

E, por conta disso, é nos momentos mais intimistas que “A Luz no Fim do Mundo” brilha. Os questionamentos incitados pela menina Rag são ótimos, repletos de ingenuidade e curiosidade, tentando compreender o incompreensível mundo ao seu redor. A partir do momento em que essa dinâmica é estabelecida, junto a seu pai, as cenas tensas se tornam ainda mais intensas, mesmo que não existam em grande quantidade. São sequências que dão cara mais comercial e blockbuster para a obra, mas que funcionam bem. Melhor do que elas, apenas, são as expectativas subvertidas que ocorrem eventualmente, na qual a tensão não leva a nada ou não recompensa o espetador como ele espera.

No mais, a ambientação e os figurinos dão conta de criar um mundo verossímil sem grandes romantizações. Os tons de cores são quase sempre desbotados e acinzentados, mostrando como tudo é muito sem esperança e sem alegria durante a projeção. Nesse aspecto, há forte contraste entre o que é apresentados a nós pelos flashbacks e os momentos presentes, inclusive nas maquiagens e caracterizações de personagens. isso fica evidente pelo filtro alaranjado e amarelado das cenas do passado, bem como na figura atuada por Casey Affleck.

“A Luz no Fim do Mundo” não é revolucionário e nem pretende ser. Cresce nos momentos mais tenros e intimistas, sabendo também dosar suspense e ação na medida correta, sem que haja tom esquizofrênico na obra. Dentre uma série de dispensáveis filmes pós-catástrofe, é uma opção que se faz um pouco mais memorável e notável.


Imagens e Vídeo: Divulgação/Imagem Filmes

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Mauro Machado

Ser envolto em camadas de sarcasmo e crises existenciais. Desde 1997 tentando entender o mundo que o cerca,e falhando nisso cada vez mais.

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