Crítica: A Vida Invisível

Imagem: Divulgação/Sony Pictures do BrasilImagem: Divulgação/Sony Pictures do BrasilImagem: Divulgação/Sony Pictures do BrasilImagem: Divulgação/Sony Pictures do BrasilImagem: Divulgação/Sony Pictures do Brasil

Karim Aïnouz e seu cinema nordestino sempre fizeram sucesso entre os cinéfilos e críticos. Selecionado e premiado em inúmeros festivais, em vários anos, os filmes de Aïnouz possuem um alto e inquestionável padrão de qualidade. Talvez, o que faltava ao cineasta era o maior reconhecimento do público habitual brasileiro, aquele que não é conhecedor dos meandros da sétima arte nacional. Para isso, faltava-lhe um maior apoio de distribuição e marketing que revelasse ao povo suas obras. As linhas acima foram escritas no passado porque agora, com “A Vida Invisível”, Aïnouz recebe aquilo que sempre mereceu: distribuição robusta feita pela Amazon, e a maciça cobertura por parte da mídia depois que o filme foi escolhido para tentar uma indicação ao Oscar.

Claro, antes do apoio da gigante americana, houve a mão de ouro de Rodrigo Teixeira e sua produtora de sucessos RT Features, que levou o projeto ao cineasta cearense, e o prêmio na mostra Un Certain Regard em Cannes, que chancelou sua qualidade e ajudou na visibilidade. Evidentemente, os resultados positivos só foram alcançados porque o longa é excepcional do roteiro, passando pela direção, design de produção e fotografia, às atuações. Porém, acima de tudo, “A Vida Invisível” é humano e atual. Se passa na década de 50, mas discute temas que continuam incomodando o mundo no século 21 a partir da história de duas irmãs vítimas de pensamentos e costumes destruidores em uma sociedade ainda atrasada.

A duas irmãs em questão são Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler) que vivem com o pai português e a mãe em uma periferia do Rio de Janeiro. Eurídice é um fenômeno do piano e Guida possui uma personalidade bem a frente de seu tempo. Elas querem mais do que apenas se casar, ter filhos e se tornarem donas de casa como a mãe. O problema é que essas sãos as vidas que o pai conservador planejou a elas. Guida consegue fugir para a Europa com um marinheiro grego por quem se apaixona, já Eurídice segue os planos do pai e se casa com o patético contador Antenor (Gregório Duvivier). A separação das irmãs começa aí, assim como as indagações feitas pelo roteiro escrito pelo próprio Aïnouz, em coautoria com Murilo Hauser e Inés Bortagaray, e baseado no livro “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” de Martha Batalha.

Já em seu prologo, o longa entrega ao espectador cenas angustiantes, no entanto belas e poéticas, ao mostrar as duas protagonistas perdidas em uma floresta como em uma espécie de devaneio ou fantasia. Mesmo que uma grite o nome da outra, elas não conseguem se encontrar em meio ao verde da mata. O interessante é que o verde da natureza que as separa irá acompanhá-las durante todo o restante da história, seja na cor das paredes, ou na abundante quantidade de plantas que as cercam em suas casas. Elas continuam perdidas e separadas pela floresta mesmo não estando nela. Segregador também é a vontade do pai em manter uma longe da outra, pois não considera a desonrada Guida como filha, mesmo essa pedindo seu perdão quando volta ao Rio de Janeiro solteira e grávida. Ela então terá que se virar em trabalhos que vão da faxina ao de ajudante de produção.Realmente, a existência das irmãs é dura, ainda mais porque não estão juntas. Quando estavam, o amor as fazia passar com menos dor pelas adversidades cotidianas. O que sobra a essas pobres mulheres são os homens de suas vidas, e eles são o que de mais repugnante pode existir. Antenor, como marido e pai, não chega a ser tão conservador e retrógado como o pai de Eurídice, mas é um sujeito machista e que trata a esposa como objeto sexual. As cenas de sexo entre os dois são tão desagradáveis que dá vontade de fechar os olhos quando elas acontecem. Não há paixão ali, há apenas um macho que sobe em sua fêmea para procriar, e no processo geme infantilmente. Guida não tem mais sorte, já que é largada gravida pelo grego e é constantemente hostilizada por machos que acham que ela deveria estar em casa cuidando de um marido ao invés de estar trabalhando no lugar dele.

Para completar o clima antiquado, a fotografia da francesa Hélène Louvart possui uma textura granulada e conta com pouca iluminação, como se “A Vida Invisível” tivesse sido de fato filmado nos anos 50. Os ambientes escuros escolhidos pela fotografia, inclusive, servem como contrapontos ao colorido das roupas e das maquiagens das irmãs. São cores que saltam aos olhos, definindo a representatividade de suas existências. O vermelho do vestido de Eurídise e do batom de Guida ultrapassam o véu escuro que permeia as imagens idealizada por Louvart, para penetrarem nos pensamentos dos espectadores que pensarão nelas para além do término da projeção. Nas cabeças também ficará a breve, mas magistral participação de Fernando Montenegro nos momentos derradeiros do último ato.

Contudo, Fernando Montenegro é apenas a cereja do bolo no quesito atuação. Duarte e Stockler se destacam ao construírem personagens que parecem presas dentro do próprio corpo. A tristeza de seus semblantes, mesmo em momentos alegres, vem através de seus olhos. Suas atuações são poderosas, mas que não apelam para exageros gestuais ou emocionais. É tudo muito bem pensado e executado por Aïnouz, conhecido pelo perfeccionismo e pela habilidade em dirigir atores. Alguns até podem dizer que um homem não tem conhecimento de causa para fazer um filme que trata das agruras femininas. Para esses, é bom explicar que o cineasta foi criado por uma mãe solteira, em uma casa cheia de tias e avós. Elas, com certeza, o ajudaram a entender que as mulheres têm o direito de ser tudo, menos invisíveis.

* Este filme foi visto durante a 43ª Mostra de Cinema de São Paulo

Vídeo: Divulgação/Sony Pictures do Brasil

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