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Crítica: “Altered Carbon”

A princípio, quando pensamos em um futuro distante, buscamos idealizar uma vida melhor, com tecnologias que facilitem nossa rotina e que seja possível consertar um pouco dos problemas atuais. Em “Altered Carbon”, com mais de 200 anos na frente, mostra uma visão de mundo fatalista e que, se comparado a esse, está de igual para pior nos quesitos de violência, maldade e jogos de interesse.

A história bem criativa é baseada no livro homônimo de Richard K. Morgan, em que conta uma narrativa do século XXV, onde todos os humanos possuem suas consciências em dispositivos que são colocados na parte de trás do pescoço, além de terem a ideia de que os corpos são meras cascas utilizadas como a casa do nosso verdadeiro eu.

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Para construir um discurso ao redor desse conceito, são trabalhadas ideias de Nietzsche até Hobbes. Pode ser coincidência e não realmente ter buscado este embasamento, porém, em muitas das explicações iniciais, tratavam sobre o conhecimento dos humanos, focados em guerra e destruição, assim como implantar a percepção de que o sexo e a imortalidade são formas de escapar da própria tristeza e destruição.

Até a metade da temporada, há muitos monólogos e tentativas de reflexão de cada personagem – que, inclusive, a grande quantidade deles faz com que a linha de raciocínio seja perdida –, porém, em formatos vazios e nos deixando sem o poder de desenvolvimento e compreensão dos porquês de tudo que estava sendo entregue.Assim como Takeshi Kovacs (Joel Kinnaman), o personagem principal, que ficou congelado durante 250 anos e está sem entender o mundo a sua volta, ficamos com os mesmos questionamentos – estes que só começam a fazer algum sentido, como já dito, a partir do quinto episódio. A escolha de despertar Kovacs foi do milionário Laurens Bancroft (James Purefoy), por necessitar de um detetive improvisado para descobrir quem havia o matado. Kovacs, por ter sua experiência e agilidade, foi o designado para esse serviço em troca de sua liberdade e, consequentemente, ter a “carcaça” que desejar.

Entre a busca pelo assassino de Bancroft e tentar se habituar a esse novo mundo, o recém-chegado se envolve em outras questões, sejam novas ou mal resolvidas. Com uma obsessão sem aparente motivo por ele, temos Kristin Ortega (Martha Higareda), uma policial mexicana que está disposta a tudo para conseguir informações.

No começo, o único pensamento viável sobre a obra seria de que, da mesma maneira que ocorreu com várias outras, a ideia é boa, mas peca na execução. Cenas de muita violência e nudez desnecessária na maior parte do tempo – mesmo que possa haver uma ligação com a banalização do pensamento e proteção em relação ao corpo –, ambos os pontos deixam a série aparentar que há uma preocupação maior em mostrar os atores sem roupa do que, de fato, se comprometer com o que foi proposto.

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Ainda sobre a confusão existente e que pesa muito na decisão de considerar AC um produto bom ou não, há os fantasmas do passado de Kovacs, que, até o sétimo episódio, não dá para ter certeza se são duas personagens diferentes – uma irmã e um amor – ou se são a mesma pessoa em corpos distintos. Com o total de dez episódios, parece mais que a primeira parte foi escrita e produzida por uma equipe e a segunda, por um grupo completamente novo. Se os cinco primeiros capítulos fossem como os últimos, seria algo que pudesse quase chegar no ponto equivalente a expectativa após assistir ao trailer.Claramente, existem pontos positivos, como a idealização falha do ser humano de que se conseguir a imortalidade, essa seria a solução para os males internos e externos. Outra posição interessante é a de colocar alguns conflitos, como mulheres em corpos de homens e crianças nos de adultos. Caso fosse melhor aprimorada, seria uma importante reflexão para os dias atuais em que há tanta intolerância e preconceitos relacionados ao corpo e ao modo de vida que cada um tem para si.

Quanto a resolução do crime central, foi uma tirada aceitável à primeira vista, mas que, depois, se tornou, assim como outras pautas, algo muito elaborado e, consequentemente, forçado. Infelizmente, a sede de responder a tudo, faz com que muitas perguntas fiquem sem o tempo de andamento necessário. Não era imprescindível que tudo fosse arrumado logo na primeira temporada, visto que a próxima, da forma que foi concluída a anterior, não é vital que ocorra.

É admirável colocar detalhes específicos no esqueleto da ficção, mas, com essa responsabilidade, existe o trabalho de explicar a tudo que se cria. Não basta somente focar em algumas partes e esquecer das outras. A atuação, por exemplo, foi, no geral, muito bem-feita. Contudo, algumas relações, como de Ortega e Kovacs, indicavam um caminho que, depois, foi interrompido e pareceu uma ilusão para quem assistia.

“Altered Carbon”, apesar da transparente dedicação para os efeitos e cenários, errou em detalhes que foram essenciais para fazer com que a série parecesse um roteiro afobado e com desejo por várias novidades em um mesmo núcleo. Caso a série tivesse um signo, com toda certeza, seria de Gêmeos. Quer fazer muitas coisas ao mesmo tempo, mas, no final, acaba não terminando nenhuma e, infelizmente, pode finalizar não com o brilhantismo que havia planejado.

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Written By

É da Cidade Sorriso e, sim, sorri de uma ponta a outra olhando para o Rio de Janeiro que, claro, continua lindo. Ama filmes de comédia romântica e suspense, chora em alguns - até porque chora, inclusive, em comercial de TV -, não curte nem um pouco terror e defende com unhas e dentes seus personagens preferidos das suas séries. Geminiana e... isso já diz tudo.

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