Quem nunca sonhou em encontrar o amor da vida num ônibus, no metrô? Andar em algum tipo de transporte coletivo desses e sonhar com isso parece sempre ter estado no inconsciente coletivo de boa parte da humanidade. Ainda que não seja o grande amor, de fato, mente quem nunca se atraiu por alguém nessas situações, ou tentou alguma troca de olhares fracassada. Richard Later mostrou que entendeu bem tal concepção quando lançou, na década de 90, “Antes do Amanhecer”. Filme que iniciou a chamada “Trilogia do Antes”, porém que pode ser assistido isoladamente e que brinca com essa questão. E se um grande romance começasse dentro de uma viagem de trem?

Ao contrário de outros títulos do gênero, “Antes do Amanhecer” aposta na inteligência do espectador, e portanto não se faz previsível além da conta. Mesmo com sua premissa simples, quase ingênua, o grande trunfo é a forma como ela é desenvolvida. Os diálogos ocupam a maior parte do tempo, fazendo com que conheçamos melhor o casal protagonista, da mesma forma em que ele também vai se conhecendo mais profundamente. Longe de diálogos bregas ou carregados demais no sentimentalismo, o ecletismo das conversas vão desde coisas pequenas do cotidiano até visões de mundo e assuntos correlatos. É incrível que tudo flua de forma tão natural ao longo da trama, que demora apenas uma noite e a madrugada para seu desenrolar. Outro ponto, e talvez o que mais fortalece esses aspectos, é a verdade que é colocada no texto. A sinceridade proveniente do roteiro e dos atores é encantadora, envolve o público sem que ele nem perceba. Inegável o misto de curiosidade e prazer que é ver até onde os dois podem ir, qual será o ápice daquela situação e o que ocorrerá depois.     Linklater, tendo uma narrativa tão cometida para contar, nos apresenta um trabalho de direção coerente com sua proposta. Grande parte do tempo, para não dizer a maioria dele, é passada com a câmera na frente dos dois personagens principais, enquanto se movimenta de forma que os acompanhe, sem cortes e sempre focando neles. É uma tática nada mirabolante, entretanto efetiva e discreta, com tons até documentaristas. A proximidade com que a filmagem é feita dos atores também nos aproxima deles, tornando a situação, que se assemelha a um sonho, muito tátil, concreta. Ademais, nota-se que o diretor provavelmente deu bastante liberdade ao elenco para que tal noção tivesse ainda mais fundamento, o que talvez os torne interpretando um pouco deles mesmos em alguns momentos.

Com pouca elaboração, mas repleto de sinceridade e sentimento, “Antes do Amanhecer” é uma obra que merece ser vista não só pelos eternos românticos e fãs de cinema desse gênero, mas por qualquer um que aprecie refletir sobre relações humanas. Torna-se, intencionalmente ou não, estudo delas e é sagaz ao brincar com uma fantasia tida por tantos ao redor do mundo. Para além de si, suas continuações “Antes do Pôr-do-Sol” e “Antes da Meia-Noite” estabelecem importante diálogo e paralelos com o que é criado aqui. Seja para contrapor, quebrar ou reafirmar ideias com as quais o filme é impregnado. Felizmente é uma trilogia que não apenas é coesa e de ótimo nível, mas acima de tudo, verdadeira.


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Mauro Machado

Ser envolto em camadas de sarcasmo e crises existenciais. Desde 1997 tentando entender o mundo que o cerca,e falhando nisso cada vez mais.

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