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Crítica: A Outra História do Mundo

Avatar de Luiz Baez
Luiz Baez
24 de julho de 2018 3 Mins Read
“A história nos ajuda a entender quando o homem se transformou nesse animal destrutivo e egoísta.”

0658665.jpg r 1920 1080 f jpg q xNas últimas décadas, dois entendimentos guiam as artes, especialmente aquelas produzidas em antigas colônias. De acordo com um deles, a realidade não passa de uma ficção consensual. O outro, consequência direta do primeiro, atribui às narrativas o papel de contestar o poder dominante. Em sua conferência Teoria do Complô (Teoria del Complot, 2001), o romancista argentino Ricardo Piglia sintetiza a questão. Contra um Estado conspirador, resiste-se conspirando, construindo complôs. É isso, portanto, que faz a personagem Gregorio Esnal. Contrapondo-se à história oficial da ditadura, o protagonista constrói versão própria, “A Outra História do Mundo” (Otra historia del mundo, 2017).

Durante o governo do interventor Werner Valerio (Néstor Guzzini), a cidade de Mosquitos, no Uruguai, enfrenta severas restrições. Os bares locais, por exemplo, precisam fechar pontualmente às dez da noite. Revoltados, os amigos Gregorio Esnal (César Troncoso) e Milo Striga (Roberto Suárez) elaboram um plano. Enquanto o primeiro sequestra a coleção de anões de jardim do coronel, o segundo invade a estação de rádio e obriga o locutor (Christian Font) a ler um manifesto pela democracia. Mascarado para esconder o rosto, Striga não contava, contudo, com o reconhecimento da caligrafia pelo carteiro Provisorio (Gustaf). Descoberta sua participação, ele desaparece. Esnal, por outro lado, passa os dias sozinho em um quarto. Procurado pelas filhas de Milo, Beatriz (Natalia Mikeliunas) e Anita (Alfonsina Carrocio), deixa, porém, a reclusão e inicia uma silenciosa cruzada para libertar o amigo: em 24 aulas de história antiga, ele pretende insuflar a população contra o autoritarismo.

O enredo, baseado no livro Alivio de luto (1998), de Mario Delgado Aparaín, tematiza, como visto, a resistência a um regime ditatorial. A figura de um brasileiro, Zezé (Claudio Jaborandy), aponta, contudo, para muito além da pequena província uruguaia. Apesar de não dominar o espanhol, a personagem, um simples dono de bar, consegue se comunicar com as demais. Compartilha, enfim, as mesmas preocupações. Metonimicamente, as nações Uruguai e Brasil, ainda que difiram quanto ao idioma oficial, coincidem sob muitos aspectos – entre eles, o passado colonial e os governos militares entre os anos 1960 e 1980. Um filme como “A Outra História do Mundo” dialoga, assim, também com os espectadores do país lusófono. Ao indicar um projeto comum, isto é, o de fabular novos horizontes – como Esnal -, o longa-metragem transcende seu local de produção e coloca em convergência toda a América Latina.STILL 28

Se todas as artes podem produzir narrativas contestadoras, Guillermo Casanova (“El viaje hacia el mar”) marca a diferença do cinema. Em vez de meramente transpor, junto à co-roteirista Inés Bortagaray (“Minha Amiga do Parque”), o texto de Aparaín, o realizador uruguaio privilegia as especificidades do audiovisual. As aulas de história traduzem-se, desse modo, em retroprojeções e teatros de sombras. O uso criativo dos recursos impressiona tanto a turma quanto o público: ambos entregam-se a vívidas sensações. Por meio de seus pequenos “filmes”, Esnal apropria-se, então, do efeito de real das imagens em movimento. São elas, em outras palavras, que convencem os alunos da veracidade de suas falas.

Não obstante a temática séria, no entanto, “A Outra História do Mundo” não abre mão do bom humor. Nesse sentido, César Troncoso (“O Vendedor de Sonhos”) empresta singular irreverência ao protagonista. Por esse motivo, o ator recebeu o prêmio do júri no Festival de Miami. Selecionado, ainda, como representante do Uruguai no último Oscar de melhor filme estrangeiro, o longa-metragem de Casanova chega ao Brasil no próximo mês. Por discutir uma realidade comum à América Latina, deve, por fim, encontrar ressonância entre as plateias nacionais.

* O filme estreia dia 2 de agosto, quinta-feira.

 

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América LatinaCinema UruguaioComédiaHistóriaUruguai

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Luiz Baez

Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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