Antes Que Eu Me Esqueça” é o primeiro longa de ficção do diretor Tiago Arakilian. Apresentando um argumento diferente, o filme se trata de temas pesados, como o mal de Alzheimer e a marginalização dos que sofrem com a doença, mas ao mesmo tempo também é uma comédia que transita entre o besteirol e o pastelão. Uma fusão inusitada, a produção surpreende e funciona na maior parte, mas também apresenta seus problemas.

A história é sobre Polidoro (José de Abreu), um juiz aposentado de 80 anos que decide, da noite para o dia, comprar um strip club para gerenciar. Sua filha, Bia (Letícia Isnard), suspeita que ele não esteja são e o leva para a corte, para obrigá-lo a pedir ajuda profissional, porém, o magistrado também quer a opinião de Paulo (Danton Mello), filho brigado de Polidoro, que é percussionista de uma orquestra, mas que deseja retomar aulas de piano para tocar em uma Filarmônica. Paulo, então, deve reatar relações e voltar a conviver com o pai para averiguar o seu estado de saúde mental, aproveitando também para praticar o instrumento nesse tempo.

Em questão técnica, o longa não deixa muito a desejar. A caracterização de Paulo como um pianista amador que quer se tornar profissional é umas das principais tramas do filme, e as cenas em que ele toca o instrumento são o destaque para a direção e a montagem: a primeira que inventa enquadramentos criativos para não tornar todas essas sequências repetitivas – como um plano detalhe do reflexo que as mãos de Paulo fazem no piano – e a segunda que mistura bem o ritmo da música com o dos acontecimentos – algo que acontece tanto na cena de introdução quanto nos pontos de virada do enredo.

Além disso, o diretor também se demonstra versátil em outros momentos, como em um plano longo no qual a câmera passeia pela boate, mostrando o que cada um dos personagens está fazendo. Esse trabalho é complementado por uma fotografia que constrói um ambiente escuro, mas ao mesmo tempo vivo, o que é um bom conjunto de características para definir o strip club no qual a trama se passa.

Como dito, o roteiro, assinado por Luisa Parnes, é uma mistura inusitada de um drama sobre Alzheimer com uma comédia, e o conjunto não é de mal gosto, já que esses gêneros não são abordados simultaneamente. Ao invés disso, o humor se dá quase todo pelo absurdo da situação que é um velho juiz aposentado administrando uma casa de prostituição, enquanto o drama familiar e a doença de Polidoro são tratados de maneira séria. Também é mérito da roteirista conseguir equilibrar uma grande quantidade de personagens no longa, cada um que tem o seu momento de ser relevante.

O script, porém, não é à prova de falhas e se mostra um pouco cretino em alguns aspectos, particularmente no arco de personagem de Maria Pia (Mariana Lima), cuja mensagem aparente é que uma mulher só é feliz se estiver usando um decote. A parte cômica do roteiro, também, por mais que tenha várias piadas boas, insiste em apostar em outras óbvias. Quando os personagens estão em um bordel e alguém diz que “comida dá dinheiro”, não tem uma pessoa na audiência que não saiba onde esse diálogo vai chegar.

A maioria desses momentos previsíveis envolve a personagem de Joelma (Guta Stresser), uma das dançarinas / prostitutas do clube. A atuação de Stresser, em si, não é ruim, mas o que mais danifica a personagem é a insistência de um sotaque pernambucano, feito de maneira forçada pela atriz curitibana, que a deixa mais parecida com uma caricatura do que com uma pessoa crível.

O restante do elenco, porém, em sua maioria, entrega performances sólidas. José de Abreu traduz bem a fragilidade de um idoso que tem consciência de estar perdendo aos poucos sua sanidade, e Danton Mello faz uma boa interpretação de um homem desconexo, perdido em sua vida.

Antes Que Eu Me Esqueça” , por fim, tem seus momentos bons e momentos ruins. É um filme decente, que diverte na medida certa, sem ser muito apelativo. Pode não ser exatamente uma obra-prima, mas é uma produção agradável.


Apoia-se

Show Full Content

About Author View Posts

Avatar
Oswaldo Marchi

Publicitário formado no Rio de Janeiro, tem mais hobbies e ideias do que consegue administrar. Apaixonado por cinema e música, com um foco em filmes de terror trash e bandas de heavy metal obscuras. Atualmente também fala das trasheiras que assiste em seu canal do Youtube, "Trasheira Violenta".

Previous Crítica: Han Solo: Uma História Star Wars
Next Resenha: A sorte segue a coragem! Oportunidades, competências e tempos de vida, de Mario Sergio Cortella

Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close
Close