É possível que se Freud tivesse assistido “Aos Nossos Filhos” teria gostado ou, no mínimo, teria achado-o interessante. O pai da psicanálise muito escreveu sobre relações entre pais e filhos e suas consequências para a psiquê dos indivíduos, e é basicamente isso que o filme de Maria de Medeiros faz. Temos um drama familiar que discute maternidade, que tem nela e na interação entre pais e filhos o seu ponto de partida.

Contudo, não se limita a discussões banais sobre o tema e insere-o dentro de uma realidade mais contemporânea. Discute a aceitação da adoção por casais LGBT e como se dá essa estrutura familiar dentro de famílias que fogem do padrão que tanto nos é imposto. O longa-metragem é ainda provocativo, uma vez que coloca Vera (Marieta Severo) em enfrentamento direto com a sua filha, que também se encontra querendo adentrar a maternidade. Mesmo que a personagem de Marieta Severo tenha sido guerrilheira na época da ditadura militar, e portanto ativista de esquerda, isso não significa que sua mentalidade para todos os assuntos esteja dentro do campo progressista. A ideia de que a desconstrução é algo precisa ser feito mesmo por aqueles que lutaram contra regimes autoritários no passado é presente em “Aos Nossos Filhos”. Existe também a noção ali de que lidar com perdas e traumas do passado é importante para que também possamos manter a mente mais aberta.

O roteiro é até bastante simples e foca nesses conflitos tidos nessa confusão que são os pais com seus filhos e vice-versa, mas que é suficiente para que importantes assuntos estejam ali. O que o enfraquece é, talvez, a impossibilidade tida de aprofundá-los com a devida atenção. Fica a sensação de que teria sido melhor diminuir o leque de eixos temáticos para melhor trabalhar aqueles escolhidos como rumo do filme. Por mais que possa parecer simples dizer que o assunto central é o drama familiar, em realidade é até bem complicado o modo com o qual isso pode se desdobrar.

O elenco, como deve-se comentar, é eficaz e possui muita responsabilidade. Muitos dos diálogos e situações são fortes, difíceis, e exigem uma criação cênica crível para entregar aquilo que o texto pede. Marieta Severo e José de Abreu, veteranos, são os que melhor trabalham aqui. O destaque, em particular, é de Marieta Severo, já que grande parte da energia emanada por “Aos Nossos Filhos” vem dela.

A direção também consegue entregar aquilo que é pedido e constrói bem tensão e sabe ilustrar bem os distanciamentos e aproximações que existem entre os personagens. Maria de Medeiros não faz questão de planos virtuosos ou complexos, optando por sutileza e sobriedade no controle das câmeras.

“Aos Nossos Filhos” é bom drama que aborda temas bem importantes aos dias de hoje. Toca em assuntos polêmicos e já por isso carrega consigo considerável força. Pode não ser o maior filme brasileiro dos últimos tempos, mas com certeza possui seu valor.

 

*Até a publicação dessa crítica não havia trailler disponível do filme

Imagens: Labo Digital

 

Aos Nossos Filhos

0.0
Bom

Vera (Marieta Severo) é uma mãe dedicada, divorciada após três casamentos e vive em uma família grande que inclui seus filhos e enteados. Destemida e experiente, ela já pegou em armas para lutar contra a ditadura e morou em diversas partes do mundo. Tânia, a filha (Laura Castro), é mais “careta” e vive um casamento que já vai completar 15 anos com outra mulher que está grávida do primeiro filho. Juntas, elas descobrem a beleza de fazer parte de uma família contemporânea.

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Mauro Machado

Ser envolto em camadas de sarcasmo e crises existenciais. Desde 1997 tentando entender o mundo que o cerca,e falhando nisso cada vez mais.

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