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Crítica: As Mil e Uma Noites, Vol. III – O Encantado

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Paulo Olivera
2 de janeiro de 2017 3 Mins Read

Um final naufragado

22888900032 df9e2b1661 oDepois de um pouco mais de quatro horas se aventurando pela trilogia portuguesa, “As Mil e Uma Noites”, em “O Inquieto (Vol. I)” e “O Desolado (Vol. II)”, chegou a hora de conferir a ultima parte, com mais duas horas de duração, da obra dirigida por Miguel Gomes, que, em partes, funciona poeticamente, mas cai categoricamente comparado aos títulos anteriores.

Depois de termos acompanhado as histórias contadas por Xerazade (Crista Alfaiate), ela enfim ganha forma para iniciar a nova trajetória exposta no filme. Por não saber se ainda conseguiria agradar ao Rei, durante outras noites que estariam por vir, Xerazade deixa o palácio disposta a conhecer o mundo exterior e, ao retornar, ela conta a história de uma comunidade de homens em Lisboa que captura e ensina pássaros a cantar. Também dividido em contos, esse volume traz “Xerazade”, “O Inebriante Canto dos Tentilhões” e “Floresta Quente”.

Com a direção de Miguel Gomes, que também assina o roteiro com Telmo Churro e Mariana Ricardo, o Vol. III perde a mão, o ritmo e em partes nos faz perder o desejo de assisti-lo. Dessa vez a proposta é apresentar a personagem que narra os contos e exaltar a simplicidade do povo português que, em meio a crise, se mantém firme em suas tradições e simplicidades. Dada as circunstancias apresentada nos anteriores, com um foco politico recheado de sarcasmo, “O Encantado” tem seus pontos altos, mas são pequenos demais para manter uma boa estrutura narrativa.

A trilogia, que se inspira na obra literária de mesmo título, segue como uma crítica politico-sócio-econômica, à crise que Portugal viveu nos anos de 2013 e 2014, atacando, de maneira artística e direta, o governo, o FMI, a polícia, a justiça e etc. Talvez por tamanha a força ganhada nos exemplares anteriores, o final da saga perdeu por ser simples demais, demorada e sem nenhum apice narrativo, fazendo com que a melhor parte de todo o filme fosse a apresentação de Xerazade ao espectador.

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Indo para os termos mais técnicos, a direção de Miguel é facilmente reconhecida e unificada para todas as obras. Dando predominância aos planos mais abertos e pouquíssimos planos fechados, seu trabalho segue uma ideologia intrínseca para a contemplação e, a sua maneira, a beleza da degradação de Portugal. Talvez essa foi a maneira que encontrou de fazer o seu “O Grito” (obra visual de Edvard Munch) para uma versão cinematográfica, com pinceladas de contemporaneidade.

Contemporaneidade vista com frequência através do departamento de arte, cenografia e figurino, que mescla o universo estético oriundo da antiga Arábia, junto ao atual e, praticamente, documental retrato da humanidade, captado através da “chapada” direção de fotografia de Sayombhu Mukdeeprom. Também vale ressaltar a trilha sonora que traz canções como “Fala”, dos Secos & Molhados, “Samba da Minha Terra”, dos Novos Baianos, e “Son Of a Gun”, de Lee Hazlewood.

Se tratando das atuações, não há dúvidas que o filme é de Crista Alfaiate, embora o ator Américo Silva, como Grão-Vizir, consegue abrir o filme com uma interpretação seca e emocionante, apresentada por um monologo bem estruturado e poético. Pois para ambos os atores aqui citados, a simplicidade atrelada a naturalidade, fazem deles ótimas escolhas para o casting.

“As Mil e Uma Noites, Vol. III – O Encantado” acaba decepcionando um pouco e naufraga em sua tentativa de se fazer entreter e questionar. O longa, que chega aos cinemas nacionais esse ano, provavelmente não fará muito sucesso com o publico brasileiro, como tem feito em outros países, por causa de seu formato e desenvolvimento, o que é uma pena. Afinal, o obra poderia ter tido um resultado final excelente uma vez que sua proposta era verdadeiramente interessante e crítica.

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Paulo Olivera

Paulo Olivera é mineiro, mas reside no Rio de Janeiro há mais de 10 anos. Produtor de Arte e Objetos para o audiovisual, gypsy lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, workaholic e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.

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