A personificação da baianidade

Segundo o dicionário PRIBERAM de Língua Portuguesa, o verbete axé pode ser tanto substantivo masculino, quanto interjeição. Oriundo do ioruba (Yorubá), um dos maiores grupos étnico-linguísticos da África Ocidental, axé quando substantivo masculino significa energia vital de cada ser, de cada orixá. Já, quando falamos de interjeição é uma expressão de desejo para algo bom.

Aqui, Axé é o próximo longa-metragem/documentário que tem estreia prevista para o dia 19 de janeiro. Com elenco bem conhecido do público brasileiro e um ritmo que não deixa ninguém ficar parado, Axé: Canto do povo de um lugar, vem trazer histórias, raízes e quebrar paradigmas.

A direção é de Chico Kertész que levou o longa à 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo para Competição Novos Diretores. É uma produção de Macaco Gordo e a Mostra ocorreu entre os dias 20 de outubro a 02 de novembro.

Ambientado na Bahia e com depoimento de estrelas da música brasileira como Caetano Veloso, Ivete Sangalo, Luiz Caldas, Daniela Mercury, Carlinhos Brown entre outros, Axé traz também declarações de músicos, produtores, fotógrafos, jornalistas que estiveram desde o marco zero da história deste ritmo. É um filme riquíssimo em carga histórica. E gostoso de se ver. Daqueles que seu pé não fica parado mesmo sentado na sala do cinema.

Quando questionados quem foi o pai do axé, as respostas eram diversas. Luiz Caldas talvez tenha sido o progenitor, mas foi com Olodum que a Bahia ganhou o Brasil. A banda formada pelos negros resistentes ao sistema e a censura, mostrou que é preciso ter orgulho da cor da pele, do cabelo, e de seus ancestrais. E foi assim, ao som dos batuques do candomblé, dos rodopios da dança de rua, dos gritos de guerra; que do Brasil, Olodum mostrou também orgulho ao mundo.A fotografia e a direção são fantásticas. A obra vai além dos depoimentos dos músicos e dos artistas e abre os arquivos das décadas de 80, 90 e dos anos 2000. Mistura fitas antigas com takes atuais. Começa com detalhes em preto e branco e vai crescendo em um colorido tão grande, que nos faz querer antecipar o carnaval.

Axé traça uma linha do tempo e mostra o ritmo baiano do o seu início ao seu apogeu nos anos 2000. Também mostra as amarguras da ambição. Da solidão que é começar a querer fazer o sucesso no meio de tanta gente boa e que só enxerga a si mesmo.

Axé, acima de tudo, fala de gente. Fala do povo e para o povo. Traz uma baianidade nagô que reverbera no público em suas poltronas do cinema. É um documentário gostoso. Desmistifica os preconceitos enraizados que rodam o nome (axé) e o sujeito que o escuta.

É um filme que brinca com os recôncavos da nossa memória.

Se você gosta de história, se gosta de sorrir, se quer antecipar o carnaval. Esse é o seu filme. É um olhar do passado, que monta o futuro. “Axé: canto do povo de um lugar” é manifestação de força e energia. É  a verdadeira tradução do verbete do dicionário, só que nas telonas.


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Kinha Fonteneles

Érica nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, mas deveria ter nascido nesses lugares onde se conversa com plantas, energiza-se cristais e incenso não é só pra dar cheirinho na casa.
Letrista na alma, e essa bem... é grande demais por corpinho de 1,55 que a abriga.
Pisciana com ascendente E lua em câncer. Chora quando está feliz, triste, com raiva e até mesmo com dúvida.
Ah! É uma nefelibata sem cura.

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3 thoughts on “Crítica: Axé: Canto do povo de um lugar

  1. esse filme é demais <3
    a crítica transmite bem a vibe do filme!!
    recomendadíssimo
    Acrescentaria que a crítica à exclusão do protagonismo negro podia ter sido mais explorada no filme!
    ah, e na parte que tentam colocar a Ivete numa saia justa, como se a culpa fosse dela, isso foi desnecessário rs

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