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CríticaFilmes

Crítica: Bacurau

Avatar de João de Queiroz
João de Queiroz
21 de agosto de 2019 4 Mins Read

Bacurau poster

Em certa cena de “Bacurau”, uma moradora do pequeno vilarejo homônimo explica de onde vem o nome da localidade: um pássaro de hábitos noturnos conhecido pelo seu temperamento “esquentado”. Uma breve pesquisa na Internet traz mais algumas informações interessantes: o bacurau é encontrado majoritariamente na América Latina, tem a camuflagem como importante estratégia de defesa e, apesar do tamanho diminuto, possui grandes asas que lhe conferem muita agilidade.

Assistindo ao longa de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, não é difícil encontrar os paralelos criados entre os habitantes da cidadezinha no interior de Pernambuco e o pássaro encontrado na região; o que é ainda mais exacerbado pela comparação com os vilões do filme, um grupo de “caçadores” estadunidenses equiparados à águia americana: uma ave de rapina consideravelmente maior que o bacurau e de penugem muito mais vistosa.

Entretanto, enquanto uma análise mais conveniente e imediatista de “Bacurau” apenas usaria essa relação de forma maniqueísta (num simples “bem e mal”, “nós e eles”), Mendonça Filho e Dornelles parecem enxergar nessa situação algo mais complexo: herói e vilão têm muito em comum; logo, o que os põem em posições tão diferentes? Os realizadores, então, buscam estudar essa estranha dinâmica através da violência.

Tanto os moradores de Bacurau quanto os “safaristas” americanos têm uma fascinação inerente pela carnificina. Os estrangeiros se gabam de suas armas vintage e disputam pontos em um jogo de gato e rato, no qual mais mortes levam a uma posição mais alta no ranking. Enquanto isso, os interioranos se aglomeram em praça pública para assistir a um vídeo viral mostrando os assassinatos de Pacote (Thomás Aquino), um conterrâneo que deseja sair da vida de crime.

Todavia, ambos os lados também encontram, dentre os seus, visões conflitantes sobre a violência. Cada participante do safári segue suas próprias regras morais, que vão desde não matar mulheres e crianças até não ter limites para a matança. O povo de Bacurau, por sua vez, tem sentimentos mistos acerca de Lunga (Silvero Pereira), espécie de justiceiro local: uns concordam com suas ações, enquanto outros hesitam em exaltar sua imagem.

Bacurau 8

No fim, os realizadores chegam à conclusão que o ato violento em si não é o que distingue os estrangeiros dos nordestinos, mas sim a posição social que ocupam e como isso altera a sua relação com a violência. Os “caçadores”, vindos da maior potência econômica do planeta, centro da hegemonia cultural global, e com acesso quase irrestrito a armamentos e tecnologia, não conhecem os limites de sua dominação, pois vivem numa estrutura construída para protege-los. A violência para eles é um jogo porque a sua vitória é praticamente certa. O filme aponta, ainda, que raciocínio semelhante rege as elites brasileiras (em especial do centro-sul), que em seu “curral” seriam o reflexo da águia americana (ilusão que Mendonça Filho e Dornelles fazem questão de desmanchar).

Por outro lado, os habitantes de Bacurau, mesmo possuindo uma fixação pela violência, a abordam de forma muito mais cautelosa. Na maior parte do tempo, se camuflam assim como o pequeno pássaro latino-americano, fazendo sua voz ouvida, mas evitando o confronto direto. A cena em que o prefeito vai à cidade deixar cestas básicas e toda a população se esconde em suas casas enquanto gritam impropérios contra o político é um exemplo claro dessa estratégia. Porém, quando se impõe uma situação de “matar ou morrer”, os habitantes da cidadezinha se armam para o confronto. É a violência como necessidade.

Entretanto, enquanto alguns se satisfazem com a oportunidade de expurgar seus demônios através do derramamento de sangue, outros lamentam aquela situação, por mais inevitável que ela fosse. Dessa forma, “Bacurau” evita se portar como uma mera defesa do armamento da população como solução de todos os problemas. Se os assassinatos cometidos pelos estrangeiros trazem tristeza e revolta aos habitantes de Bacurau, os homicídios cometidos pelos locais tampouco são glorificados. A forma como os diretores filmam cada morte e cada cadáver é bruta, seca; são resultados de uma violência que, num mundo ideal, não precisaria existir. Essa impressão se estende à sequência central do filme – o esperado bang-bang -, exibida sem trilha musical, dando prioridade aos sons de cada tiro disparado e corpo derrubado.

Com certeza, terá gente que vai terminar de assistir a “Bacurau” e se sentir extasiada pela triunfante vitória da cidadezinha nordestina sobre seus algozes imperialistas. Porém, o filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles está longe de ser uma história feliz; sua conclusão é muito mais melancólica e ambígua. Assim como a última cena de “Aquarius” (longa anterior de Mendonça Filho), que apesar de catártica, apenas explicitava que Clara (Sônia Braga) só iria conseguir o que queria fazendo uso dos privilégios de que tanto falava mal, “Bacurau” encontra na resolução de seu confronto principal uma triste constatação: a vitória é amarga. Apesar da breve satisfação, a morte dos seus e o sangue dos inimigos espalhado pelas paredes vão sempre lembrar da incerteza do futuro.


Imagens e vídeo: Divulgação/Vitrine Filmes

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Tags:

BacuraubrasileiroCannesCinemaSônia Braga

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João de Queiroz

Passava tardes de final de semana na locadora. Estudou Cinema. Agora escreve sobre filmes.

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