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CríticaFilmes

Crítica: Cafarnaum

Avatar de Rodrigo Chinchio
Rodrigo Chinchio
7 de novembro de 2018 3 Mins Read

CafarnaumImagine um garoto de doze anos, Zain (Zain Alrafeea), processando os próprios pais para que esses não botem mais nenhum filho no mundo. O que justifica essa ação judicial é a incapacidade do homem e da mulher em sustentar, educar e dar carinho aos que já existem. São pelo menos cinco crianças vivendo de forma miserável em uma favela de Beirute, amontoados em um apartamento em ruínas, sem água encanada e eletricidade. São obrigados a trabalhar ou cometer algum delito para conseguir o básico à sobrevivência. Para piorar, a menina mais velha da família, que tem apenas onze anos, é dada (lê-se vendida) a um homem para casamento, revoltando Zain. “Cafarnaum” começa com o garoto indo à audiência para o início do tal processo e é revelado que está preso, já que chega algemado. A partir dai a narrativa segue em flashback para mostrar toda a trajetória que o levou para trás das grades.

A jornada é árdua e cheia de momentos onde os limites humanos são testados pelo abandono e descaso de uma sociedade falida. Labaki não poupa o espectador jogando na cara toda aquela realidade sombria. Alguns brasileiros irão se identificar com o esgoto a céu aberto, as pilhas de lixo espalhados pelas ruas, os barracos de madeira e as crianças imundas vendendo todo o tipo de produto no meio do trânsito. É praticamente impossível esconder o choro ao presenciar cenas em que o protagonista enfrenta situações acima da sua capacidade física e emocional, principalmente quando tem que cuidar do bebê de uma refugiada africana. Refugiados inclusive que possuem papel central em toda a história devido à crise de imigração que o mundo enfrenta e que o Líbano não está isento. Mulheres migram para o país e acabam virando prostitutas, crianças são traficadas entre países vizinhos até chegar a compradores da Europa em um círculo de compra e venda sem fim. Entende-se  porque o nome da cidade bíblica Cafarnaum, que ficava próxima à importante Via Maris (Estrada do Mar) e que ligava comercialmente Egito, Síria e Líbano, foi usada como referência para o título.

Cafarnaum 2

Apesar das situações caóticas, o roteiro segue exemplar em sua organização estrutural, apoiado em um arco dramático deveras competente. Todos os obstáculos impostos ao herói maltrapilho conferem a ele mais indignação em relação aos agentes envolvidos, gerando a atitude que o faz virar um criminoso. Entretanto, se o ator responsável pelo papel principal não fosse talentoso, as intenções dos roteiristas se tornariam insignificantes. Ainda bem que Alrafeea é brilhante em dar profundidade a sua atuação e cria um personagem carregado por uma tristeza tão intensa que não é capaz de sorrir. Os olhos sempre marejados só desaparecem quando a fúria toma conta de seu rosto em situações onde tenta defender sua dignidade. Um achado do cinema que não pode ser esquecido, merecendo a continuidade de sua carreira.

A condução de atores é esmera por parte de Labaki e equipe e a direção fílmica da cineasta libanesa segue o tom certo para tornar sua obra imperdível. Tomadas aéreos para mostrar a imensidão da favela que mais parece um labirinto de becos estreitos servem para situar o espectador frente àquela cidade incrustada dentro de outra cidade maior e mais civilizada. Prédios modernos cercando as paupérrimas moradas dos esquecidos. Quando a câmera entra nos barracos é para presenciar a imundice da pele das pessoas e do ambiente, como se fossem insetos sendo observados em seus habitats naturais. Zain sabe que é praticamente uma barata, seu pai diz isso a ele, por isso, prefere lutar a ser esmagado indiscriminadamente.

Este texto faz parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo

 

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Rodrigo Chinchio

Rodrigo Chinchio é colaborador da Woo! Magazine, onde escreve sobre cinema com a autoridade de quem se formou cinéfilo garimpando pérolas nas videolocadoras. Especialista em encontrar filmes que o algoritmo jamais recomendaria, mantém em seu quarto uma coleção de Blu-rays e DVDs que rivaliza com qualquer acervo físico do país, e que ainda o impede de ver a própria cama.

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