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CríticaFilmes

Crítica: Cake – Uma razão para viver

Avatar de Convidado Especial
Convidado Especial
16 de setembro de 2017 3 Mins Read
Além das cicatrizes

cake POSTERSentir dor, seja ela aguda ou crônica, física ou emocional, é algo desagradável que muitos tentam aplacar com drogas para conseguir seguir em frente. Há também quem apele para o suicídio. Em “Cake – uma razão para viver” – Jennifer Aniston é Claire, uma mulher atormentada pela perda do filho em um acidente que a deixou com o rosto e o corpo cheios de cicatrizes e transformou qualquer movimento em suplício. Frequentava um grupo de apoio para portadores de dor crônica, mas foi solicitada a procurar outro após seus comentários inadequados sobre Nina (Anna Kendrick), participante que se jogou do alto de um viaduto. Nina passa a persegui-la em alucinações, sempre com um sorriso cínico e provocando-a para que tente dar cabo de sua vida também.

Neste filme, do qual também é produtora executiva, Jennifer Aniston mostra que é muito mais do que uma atriz de comédias românticas, gênero em que se consagrou. Sua personagem tem que lidar o tempo inteiro com a dor física – e também emocional, pela morte do filho – e isso se reflete em seu corpo, sempre rígido e com mobilidade comprometida. Claire viaja de carro deitada no banco de trás ou no do carona, totalmente reclinado, e é cuidada pela atenciosa Silvana (Adriana Barraza), que também se encarrega dos serviços domésticos. Jennifer transmite toda a amargura, dor e raiva da personagem, sem cair em nenhum clichê apelativo ou sentimentalóide. Ao longo da história, Claire revela-se um tanto manipuladora, mas também capaz de gestos de generosidade, e a atriz transita bem por todas essas nuances.
cake1Adriana Barraza aproveita muitíssimo bem seu papel coadjuvante como a empregada fiel e atenciosa que nutre sincero carinho pela patroa. Seu ápice é uma cena em que, enfurecida com as insanidades de Claire, explode num frenético desabafo em espanhol. Mas sua boa atuação é perceptível também em momentos mais intimistas, em pequenos detalhes, gestos e reações. Outra participação muito interessante, embora pequena, é Felicity Hoffmann como Annette, a terapeuta do grupo de apoio. O roteiro de Patrick Tobin é bastante favorável ao elenco. A câmera nervosa é bastante usada e funciona perfeitamente bem para transmitir os estados emocionais de Claire. Além disso, quando a personagem está deitada no banco do carro temos o seu ponto de vista durante partes do trajeto, como a copa das árvores, sendo assim permanentemente lembrados de sua condição física. Aliás, sua caracterização é bem cuidada: ela tem cicatrizes no corpo e no rosto que são visíveis e bastante naturais. O cabelo praticamente quase todo o tempo permanece com um aspecto oleoso, como se não estivesse sendo lavado ou tratado, o que indica o desinteresse de Claire por sua própria aparência, quebrado apenas pelo momento em que determinada situação finalmente a motiva a ponto de decidir fazer um penteado. Seu figurino é sempre um tanto repetitivo e monocromático.

A residência de Claire deixa evidente sua confortável posição social: uma casa ampla, bem decorada, com piscina. Os dias luminosos contrastam com a depressão e a raiva da personagem. Outra quebra na tristeza densa é o colorido do México, mostrado na chegada de Claire e Silvana à Tijuana, ao som de Manu Chao.

A direção acertada de Daniel Barnz extrai o melhor do elenco, sendo a relação Claire-Silvana a mais interessante do longa. Embora se trate de um drama, a acidez da protagonista e o comportamento de sua fiel escudeira (impossível não pensar em Sancho Pança) acabam por gerar alguns momentos de humor contido. O filme não deixa de ser importante também para provocar reflexão e empatia a respeito da questão da dor crônica e suas consequências (afinal, uma das personagens chega ao ponto de tirar a própria vida).


Neuza Rodrigues

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8.5

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Tags:

DramaJennifer AnistonNetflix

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