8 de dezembro de 2019
Quem canta seus males espanta

O mundo está envelhecendo. Ainda que a sociedade teime em enaltecer a juventude e evite a todo custo aceitar que o tempo só não passa para os habitantes do cemitério, a velhice é uma realidade a ser encarada. De preferência, com menos preconceito. Já faz algum tempo que a indústria cinematográfica descobriu que os idosos também podem ser protagonistas. Esse é o caso em “Canção para Marion”.

Infelizmente, o diretor e roteirista Paul Andrew Williams exagerou na dose de sentimentalismo e fez um filme bastante previsível. É fácil saber como a trama irá se desenvolver. Por outro lado, há dois nomes de peso que fazem o longa valer a pena. Arthur (Terence Stamp) cuida diligentemente da esposa Marion (Vanessa Redgrave), que sofre de um câncer já sem possibilidades de cura, mas parece nunca perder o bom humor, ao contrário de seu marido fechado e rabugento. Ela passa o tempo que lhe resta frequentando um coral da terceira idade sob a batuta da saltitante Elizabeth (Gemma Arterton).

Terence e Vanessa têm atuações impecáveis e na medida certa. É prazeroso vê-los em cena, especialmente juntos. Já Gemma compõe uma professora tão animada, positiva, dinâmica e encorajadora que chega a ser fatigante. Apesar de sua beleza e juventude, seu mundo gira apenas em torno dos idosos do coral e de seus alunos adolescentes do colégio em que trabalha. Elizabeth inscreve o grupo – a que dá o nome de OAP’Z – numa competição que pode proporcionar a chance de participar de outra mais importante. Como não tem muitos meses pela frente, Marion resolve apresentar um solo (“True Colors”) e sua performance é realmente comovente.

Se o objetivo é emocionar e levar às lágrimas, o filme é bem-sucedido. Depois da morte da esposa, o temperamento difícil de Arthur certamente irá, ainda que com dificuldade, ser amolecido pelas boas intenções da professora que o convence a cantar. É importante ter lenços à mão. Christopher Eccleston é James, com quem Arthur tem uma relação pai e filho mal resolvida – mas não sabemos exatamente o que de tão grave aconteceu e não seria má ideia se o motivo tivesse sido incluído no roteiro. Esperamos a qualquer momento uma revelação que não ocorre – parece que a razão para tanto conflito é o fato de Arthur não ter sido um pai presente, mas da forma como os diálogos se desenrolam, suspeitamos de algo mais sério.

Interessante reparar no figurino: enquanto os idosos chegam a vestir trajes de roqueiros ou estilo tie-dye para suas apresentações, a sempre sorridente e alegre (será mesmo?) Elizabeth se veste sem nenhum toque de modernidade, parecendo uma senhorinha de rosto de porcelana.

O filme nos diverte porque a descontração e entrega dos cantores é envolvente. As canções do repertório são animadas, isso é inegável. Entram até músicas como “Let’s talk about sex” e “Love shack”. Mas trata-se de uma fórmula bastante usada e deixa a sensação de que já vimos algo parecido antes.


Neuza Rodrigues

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