6 de dezembro de 2019

Estreou em São Paulo a vida de um homem que pode ser considerado um gênio da música: Angenor de Oliveira ou apenas Cartola. Reconhecido por ser um dos fundadores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, ainda pode ser citado também como um dos maiores sambistas e compositores do Brasil.

Suas composições são relembradas durante o espetáculo com o talento de cada um dos cantores-atores do elenco. É um momento de muita inspiração ouvir os sambas tão delicados, as letras que fazem muitos se reconhecerem ou apenas admirá-las como grandiosas que são.

A vida de Cartola esta quase toda contada na peça: a briga com o pai, a boemia, a criação da escola de samba, o momento que viveu com Deolinda, o casamento com Dona Zica, que foi seu grande amor, as parcerias e a amizade forte com Carlos Cachaça, as doenças causadas pela vida errante…

Cartola foi um homem como outro qualquer, tinha seus medos, seus defeitos, que eram gritantes, mas tinha também o grande talento para compor e cantar. Sua vida foi cheia de altos e baixos, ainda jovem ganhou reconhecimento pelo grande sambista que era, mas isso nunca fez com que sua carreira realmente decolasse. Após a morte de Deolinda, que era quem o mantinha, mais ou menos, no rumo, Cartola se mudou da Mangueira e abandonou um pouco a música, uma vez que seu envolvimento com a escola de samba era cada vez menor devido aos desentendimentos que teve com a administração.

Ele só voltaria ao morro sete anos depois, graças a D. Zica que o convenceu a voltar, mas depois de perder o concurso no qual se escolhia o samba do carnaval daquele ano, Cartola jurou nunca mais escrever qualquer coisa para a escola.

O musical merece destaque a todo instante: as músicas são lindas, muito bem tocada pelos músicos presentes, as coreografias são maravilhosas, bem como os figurinos e o cenário, que não poderia deixar de ser o pátio de uma escola de samba verde e rosa. Ainda falta afinar, um pouco, a parte técnica, que teve momentos de microfones baixos ou dando eco, mas nada que estragasse o espetáculo.

Todos os números musicais ganharam aplausos entusiasmados do publico. Em especial, e bem por merecer, a interpretação dos temas por Flávio Bauraqui, que interpreta Cartola, arrancou as maiores demonstrações da plateia. Virgínia Rosa também fez um ótimo trabalho com Dona Zica. Silvetty Montilla, vivendo Aurélia Pitangas, teve aplausos em toda suas aparições: merecidamente. Ela está ótima no papel, um grande momento do espetáculo. Roberta Sá foi a convidada especial da noite, que também terá outros convidados musicais.

Vá assistir com a certeza de que será bom, mas também sem se preocupar: são quase três horas de peça, com um pequeno intervalo de 15 minutos entre os atos, e isso, como não poderia deixar de ser, cansa um pouco. É um grande espetáculo e com certeza um belo programa para se fazer em qualquer dia que ele estiver sendo apresentado. É também o reconhecimento a um grande artista e merecido: Cartola foi e sempre será um grande nome e qualquer boa homenagem é mais que merecida.

Cartola – O Mundo É Um Moinho, O Musical, esta sendo apresentado no Teatro Sérgio Cardoso, às Segundas e Sextas, 20 horas, Sábados, 21 horas, e Domingo, 18 horas.

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Marya Cecília Ribeiro

Marya Cecília é goiana de nascimento, mora em São Paulo há seis anos e ainda assim não consegue lidar com o clima 4 estações em um dia que rola nessa cidade.
Tem umas manias esquisitas, tipo ver um filme que gosta várias vezes, mas esta tentando lidar com isso (ou não). Falando nisso, ela não faz questão nenhuma de ser normal, então podemos apenas seguir em frente!

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4 thoughts on “Crítica: Cartola – O Mundo É Um Moinho, O Musical

  1. Neste fim de semana, fui assisti o musical de Cartola: O Mundo é um moinho, no teatro Sergio Cardoso SP.
    Apesar da companhia agradabilíssima da Gislaine Silva, confesso que fiquei bastante decepcionado com o espetáculo.
    Os músicos eram bons, mas a equalização do som estava péssima, eu estava sentado na segunda fileira e mesmo assim que eu não conseguia ouvir os detalhes do arranjo.
    A dramaturgia me pareceu bastante contraditória, embora ela retratasse a quadra da escola de Samba da Mangueira, escola essa que sempre foi a paixão do Cartola, a história é contada de maneira confusa um pouco atemporal, o autor faz uma mistura bastante infeliz de passado e presente.
    A partir do meio do musical entre em evidencia Aurélia Pitangas, interpretada por Silvetty Montilla, o que já estava ruim, conseguiu ficar pior, a atriz faz inúmeras piadas de estremo mal gosto, com diversas alusões ao programa “Zorra Total”, piadas e sugestões com referencias sexuais não faltaram, isso com certeza prejudicou bastante a qualidade do musical.
    O figurino também deixou bastante à desejar, haja vista que os assistentes de palco de tanto que apareceram no espetáculo, ao meu ver ele deveriam cobrar um cacho à parte, no entanto ninguém pensou em arrumar uma rouba discreta, ou pelo menos condizendo com o musical.
    Não obstante, mais uma falta grave, no final do musical por falta de ajuste nas roupas, quase que uma das atrizes fica com os seios de fora no meio de uma cena de dança.
    A fim de enriquecer o espetáculo chamaram uma escola de samba já que a história se passa em uma quadra de escola de samba. Chamar uma escola de samba para dar vida ao musical é uma ideia excelente, mas chamar a escola “Águia de Ouro” de SP, quando o cenário, as musicas e o homenageado são totalmente Mangueirenses é um verdadeiro insulto ao bom senso.
    Embora a maior parte dos atores sejam paulistas, Cartola sempre viveu no Rio de Janeiro, toda a história ocorreu na cidade do Rio de Janeiro, contudo nem dramaturgo, nem diretor nem o próprio elenco pensou em colocar o sotaque carioca nas falas, se quer tem as gírias, tão peculiares ao povo carioca.
    Malgrado esses inúmeros deslizes, o musical conta com excelentes atores e músicos, além disso conta a história de Angenor de Oliveira, conhecido mundialmente como Cartola.
    O musical apresenta os principais sambas do compositor e o momento em que foi composto.
    Apesar das falhas acredito que vale a pena ir prestigiar o espetáculo, não apenas pelo talento dos atores envolvidos, especialmente pela genialidade musical e poética de Cartola.

  2. Boa noite. Estou pesquisando sobre o musical e esbarrei no seu relato. Quero deixar registrado aqui a minha perplexidade baseada no se relato, pois ainda não vi o espetáculo.Sou uma admiradora da obra de Cartola e estou ansiosa pra que o espetáculo estréie logo no RJ. Antes porém fui pesquisar na net e me espantei com a qtde de paulistas no elenco, não que desmereça o espetáculo, mas já nas chamadas fiquei abismada com o sotaque carregado de paulistas. Cartola tem que ser reverenciado e homenageado por todos os brasileiros, mas pera aí, esquecer o sotaque de Cartola? Cartola sempre viveu no RJ é esqueceram essa parte? ou foi por puro provincianismo? Você disse que colocaram uma escola de samba, até aí tudo bem, mas uma paulista? Sendo que um dos fundadores de uma escola de samba da qualidade da mangueira não ser convidada? Não há com separar Cartola do RJ, da mangueira e do samba. Espero eu, que daqui alguns anos não queiram dizer que Cartola teve forte inspiração pra suas obras dissecando o cotidiano de SP. Que lástima. Tomara e espero que quando chegar na terra do Cartola não façam o mesmo que em SP, Cartola merce ser reverenciado na sua essência: mangueira e o RJ.

    1. Oi, Luciene, obrigada por seu comentário.

      Sim, o espetáculo está cheio de atores paulistas, muito talentosos, com vozes lindas e passaram por um dificilimo processo de avaliação com atores de todo o país para serem aprovados. O ator protagonista é maravilhoso, faz um trabalho adorável e era aplaudidissimo por sua atuação e performance. Eles deixam claro o tempo todo que a ambientação é um morro carioca, que o local é o Rio de Janeiro, e que a escola é a Mangueira. Inclusive, o cenário é verde e rosa, que são as cores oficiais da escola de samba, certo? O Cartola, hoje, é um patrimonio cultural do Brasil, como Cora Coralina o é, como Machado de Assis, Noel Rosa e tantos outros poetas, artistas… Acredito eu que quando limitamos uma pessoa a uma região, nos apropriamos dela e não deixamos que ela seja nacionalizada (que ela seja reconhecida como parte de um todo do Brasil), a privamos em apenas um estado, não estamos assegurando seu regionalismo, estamos restringindo seu contato com outras pessoas, outras culturas. O musical não tenta separar Cartola nem do samba nem do estado. A produção fez o seu máximo para fazer um espetáculo digno de quem era Cartola, deixando de lado as barreiras e preconceitos existentes entre regiões. O samba é um patrimonio do Brasil. Todas as escolas de samba devem ser agradecidas ao grande artista que foi Angenor de Oliveira. O que a escola de samba daqui de SP fez foi uma homenagem, prestou seu reconhecimento a pessoa que tornou o samba algo reconhecido culturalmente. É triste que em um país tão grande como o Brasil, com tantas culturas que deveriam ser exploradas ao máximo em todas regiões, as pessoas ainda se sintam donas do que delimita uma fronteira. Somos carentes de pessoas com trabalhos grandiosos, espetaculares. Cartola foi e sempre será Manguueira e Carioca, o musical nunca falou o contrario. Mas Cartola nunca quis ficar restrito a só isso. Como pode ser visto em diversas entrevistas que ele deu, seu grande sonho era ser reconhecido como sambista, como cantor, como artista em todo Brasil e passar, bastante, as fronteiras do morro. Ter esse reconhecimento é apenas um modo de dizer que ele o fez.

  3. Olá Marya, tudo bom? Bem, nunca questionei o talento ou a competência dos atores escalado para a peça. Acredito que estão onde estão por merecimento. Acho e gostaria q Cartola fosse mais difundido, principalmente pras gerações futuras. Quem sabe em todas as escolas do Brasil possam ter aulas de música e passem a estudar e apreciar a obra de Cartola, né? O q tenho percebido, por diversas vezes, é uma tentativa de eletizar Cartola, não q seja o caso da peça. Só q Cartola era negro, com pouco estudo e q viveu em uma favela. Uma forma de homenagea-lo é retrata-lo em sua essência. Teatro desperta diversas sensações, mas o que faço com a audição? Já vi um mineiro interpretar um carioca da zona sul, no caso Cazuza. O rapaz não se tornou um carioca, e nem isso era cobrado tampouco esperado. Mas usaram o bom senso. Cinema, assim como o teatro, tem q retratar o artista aproximando-o o mais próximo da realidade, porque quem se dispõe a sair de sua casa e pagar o ingresso é isso q espera. Não conseguem aproximar o sotaque( e sabe lá pq não se tentam) bebam de outra fonte, um gestual, uma característica particular e etc. Imagina a cena: uma homenagem a Adoniran Barbosa interpretado por um ator com forte sotaque carioca, esquecendo seu tão famoso linguajar. Garanto q haveria uma avalanche de reclamações. E isso já aconteceu algumas vezes com artistas de outros estados atuando , ou apresentando telejornais pra público tão acostumado a se ver retratado na TV e outros meios. O musical fala de Cartola, é óbvio e esperado q tivesse o morro da mangueira e a escola. Até aí nada demais. Só acho q não suavizar o sotaque ou deixar de fora gírias demonstra uma falta de cuidado. Ou como disse acima, talvez pra não chocar platéia tão acostumada a se ver sempre representada nos meios de comunicação, basta ver apresentadores, filmes e etc. Anseio q todos conheçam Cartola, principalmente as gerações futuras. Cartola não pertence ao RJ, ele é do Brasil, isso é inquestionável, mas jamais o ouvi dizer: “meu”. Fidelidade a sua essência também é uma forma de homenagea-lo. Grata.

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