Connect with us

Hi, what are you looking for?

Crítica

Crítica: Casa do Medo – Incidente em Ghostland

O cineasta francês Pacal Laugier chamou a atenção dos fãs de filmes de terror em 2008 com o impactante “Mártires”, grotesco e com uma estrutura diferenciada de roteiro, o longa foi considerado um dos mais perturbadores lançados até então na década. Laugier recebeu destaque o suficiente na época para arriscar a sua primeira produção falada em inglês, “O Homem das Sombras” (2012), que foi recebido com críticas medianas e foi um fracasso de bilheteria. Eis que, após seis anos de espera, em 2018, o diretor finalmente lançou seu quarto trabalho, “Casa do Medo – Incidente em Ghostland”, que remete bastante ao seu filme de maior sucesso, ao mesmo tempo que tenta fazer algo novo.

A trama de “Incidente em Ghostland” segue Pauline (Mylène Farmer) e suas duas filhas, a rebelde Vera (Taylor Hickson) e Beth (Emilia Jones), que sonha em escrever livros de terror.  As três estão se mudando para a casa que receberam de herança de uma falecida parente distante, mas em sua primeira noite no local, uma dupla de assassinos (Rob Archer e Kevin Power) invadem a residência e ataca a família. Anos depois, Beth (Crystal Reed), já adulta e agora uma famosa escritora, tem pesadelos com o evento e, após uma ligação desesperada de Vera (Anastasia Phillips), decide retornar à casa para ajudar sua irmã, que nunca superou o trauma. Porém, ao chegar lá, acontecimentos estranhos começam a ocorrer e perturbam a noção de Beth do que é realidade e o que é imaginação.

Em questão de estrutura, o roteiro de “Incidente em Ghostland” remete ao enredo de “Mártires”, no qual o primeiro e o segundo ato têm estilos distintos, feitos para desnortear o telespectador, que não sabe direito qual a história que o longa está contando até a metade do mesmo. O script transita entre “invasão domiciliar” e “fenômeno sobrenatural” utilizando de reviravoltas criativas e bem preparadas, mas também perde um pouco o foco quando tenta contar, aparentemente, duas histórias ao mesmo tempo. Em certo momento parece que a narrativa vai ser sobre estresse pós-traumático e em outro ponto levanta brevemente uma discussão sobre a criação de ficção de terror, mas nenhum desses fatores é aprofundado no final.

Advertisement. Scroll to continue reading.

Laugier consegue administrar bem as duas linhas do tempo através de uma direção consistente. O sofrimento e luta da família contra os invasores é registrado de maneira quase documental, com uma câmera de mão seguindo os personagens pelos corredores sombrios da casa, mas o longa sofre quando essa atmosfera é quebrada pela a inserção de alguns jump scares que não são muito efetivos e já são esperados. A montagem também é acelerada demais em algumas partes, com alguns planos passando tão rapidamente que mais dificultam do que ajudam a entender o que está acontecendo. O maior problema dessa edição, porém, é que a casa não é exibida totalmente em um plano geral, o que dificulta a criação do ambiente de terror: quando as protagonistas chegam lá pela primeira vez, Vera exclama “Isso parece a casa do Rob Zombie”, mas a imagem não mostra a “casa velha macabra” em sua plenitude.

Isso também se deve a uma fotografia escura de contraste alto que, por mais que ofusque alguns elementos da mise-en-scène, é bem feita o suficiente para não se tornar incompreensível. É interessante também como as sombras pesadas que dificultam a visão parecem propositais, principalmente quando se trata dos vilões, que ficam com o rosto envolto em sombras em quase todas as suas aparições, dando um ar mais demoníaco e menos humano para os personagens.

O design de produção, porém, constrói um ambiente de terror no lugar que tem bonecas assustadoras e antiguidades obscuras  o suficiente para ser desconcertante, mas não tanto que pareça exagerado. Também são de destaque o modo como os elementos de uma linha do tempo refletem na outra – o que é parte importante da narrativa – e os efeitos práticos de maquiagem, tanto para machucados e ferimentos quanto para, em uma sequência específica, recriar em um ator o rosto do clássico escritor H.P. Lovecraft.

Com “Casa do Medo – Incidente em Ghostland”, Pascal Laugier pode não ter atingido o mesmo nível de “Mártires”, considerado por muitos o seu melhor filme, mas cria um ambiente tenebroso e eficiente. Com uma narrativa imprevisível, boas atuações, vilões grotescos e uma atmosfera macabra, o filme tem tudo para agradar aos fãs do gênero.

Advertisement. Scroll to continue reading.

Reader Rating3 Votes
7.8
7.5
Advertisement. Scroll to continue reading.
Written By

Publicitário formado no Rio de Janeiro, tem mais hobbies e ideias do que consegue administrar. Apaixonado por cinema e música, com um foco em filmes de terror trash e bandas de heavy metal obscuras. Atualmente também fala das trasheiras que assiste em seu canal do Youtube, "Trasheira Violenta".

Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Você também pode ler...

Crítica

O personagem Predador foi sendo desgastado com o passar dos anos. Após os clássicos filmes de 1987 e 1990, estrelados por Arnold Schwarzenegger e...

Filmes

“Men – Faces do Medo” tem pôster teaser e trailer teaser revelados. O filme de terror psicológico estreia no Brasil no início de setembro....

Filmes

A Universal Pictures acaba de divulgar o primeiro trailer de “Halloween Ends“, o capítulo final da trilogia Halloween. O novo longa de terror leva a audiência...

Entrevistas

O curta de terror “O Limiar da Meia-Noite” está em fase de pré-produção e busca apoio através de financiamento coletivo Fazer cinema no Brasil...

Advertisement