Quando o primeiro “Cine Hollywood” foi lançado em 2013, muito de seu charme vinha de dois aspectos: Sua estética que beirava a um cinema de rua (provável fruto de um orçamento mais modesto); e o forte uso do humor regionalista cearense em contraste com o uso corriqueiro da linguagem e referências cinematográficas. Já sua sequência, que chega aos cinemas seis anos depois, muito do charme estético se perdeu.

No interior do Ceará, começo dos anos 1980, na pequena cidade de Pacatuba, a TV se populariza cada vez mais, fazendo com que o humilde Francisgleydisson (Edmilson Filho) feche seu adorado Cine Holliúdy e vá morar na casa de sua sogra, ao lado da esposa Maria das Graças (Miriam Freeland) e do filho Francin. Depois de passar por uma experiência envolvendo abdução alienígena, Francisgleydisson tem a ideia de rodar um longa-metragem de ficção científica onde Lampião enfrenta seres vindo do espaço sideral. Para produzir o filme, ele consegue o apoio do prefeito Olegário e de sua esposa Justina (Samantha Schmütz), futura candidata às próximas eleições.

De cara se nota um design de produção bem mais pomposo e vitaminado. A cidade e os ambientes internos ganham mais vida com cores mais vibrantes e uma iconografia cearense que está sempre em foco na decoração. E se por um lado isso deixa a produção com aspecto mais comercial, por outro vai em desencontro com o roteiro do filme – já que o mesmo é marcado por inúmeros momentos de ode ao “Cinema Novo”,  e a célebre frase de Glauber Rocha: “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”.

Não muito longe disso está a montagem, que vai pelo caminho mais óbvio ao pontuar demais as piadas, criando assim constante premeditação de algumas falas do filme. Ela acaba por tirar muito do charme da piada abrupta (algo que o texto deixa claro ser importante para a construção da punchline).

Apesar da dificuldade que encontra com a montagem, o roteiro funciona quase tão bem quanto no primeiro longa. Além do ótimo uso do“personalismo” cearense confrontado com a cultura e história cinematográfica, (porém nesse filme com evidência na norte americana) os comentários políticos sociais ficam mais afiados. Logo no começo é referido o poder econômico adquirido pela igreja, e como muito de seus interesses passaram a ser monetários. Mesmo com a ambientação setentista do filme, o texto ainda se preocupa em dar uma cutucada nas patifarias da política contemporânea usando magnificamente a frase: “Não tenho como provar, mas tenho convicção”.

É sempre bom destacar que existe uma linha muito tênue entre o personalismo e estereótipo, quando o texto tem um humor baseado nisso, é comum que um acabe se transformando no outro – o que por sorte não acontece aqui. E Apesar de boa parte disso ser sim devido ao texto, o  elenco também merece elogios. Muito das nuances dos protagonistas vem de fortes contrastes que os atores empregam a suas performances no primeiro filme – vide o ar menos lúdico de Francisgleydisson diante situações que ele enfrentava com tanto fervor no passado.

Por fim, independente de trazer uma linguagem menos rica e esteticamente interessante, “Cine Holliúdy 2 – A Chibata Sideral” mantém aquele gostinho regional brasileiro que é onde o filme brilha.


Fotos e Vídeo: Divulgação/Downtown Filmes

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Deivid R. Purificação

Cinéfilo assíduo desde que se conhece por gente,e um amante da nona arte.
É da linha de David Lynch que acredita no potencial onírico das artes.

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