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Crítica

Crítica: Los Silencios

“Com essa ilusão de reencontrar seu familiar, estamos todos no mesmo lugar: mortos!”

No centro da tela, posta-se uma pequena menina de brincos verdes. De sua boca, nada se ouve. Nuria fita o espectador, convocado pelo vazio sonoro. Mais assertiva que qualquer fala, impõe-se o extremo oposto: sua total ausência. Nesse não dito – ou, antes, no interdito – encontra-se a força da performance de María Paula Tabares Peña. Entre o visível e invisível, a voz e a mudez, o lugar e o não lugar, a estreante atriz conduz a narrativa de “Los Silencios”.

Peça-chave do longa-metragem, Nuria nasceu do feliz casamento entre Adão (Enrique Díaz) e Amparo (Marleyda Soto). Ora, que nomes mais curiosos! Adão, por um lado, remonta ao pecado original. Qual seria, então, o “fruto proibido”? Trata-se, ironicamente, de ajudar os mais pobres. Afastado de seu egoísta antecessor, o Adão contemporâneo nada quer além de dar voz aos destituídos, visibilizar os invisíveis. Tamanha ameaça não poderia tolerar o status quo: a condição fantasmagórica converte-se em sua sina.

Tal punição aflige, também, o restante da família. Sob ameaças de morte, esposa e filhos precisam deixar o município de San Martín, na Colômbia, rumo à tríplice fronteira entre o país andino, Brasil e Peru. O conflito apresenta-se de início ao público, testemunha de uma fuga a canoa. Recebidos como refugiados, Nuria e o irmão, Fabio (Adolfo Savinvino), precisam restabelecer a rotina. O primeiro passo consiste, naturalmente, em matricular-se em uma nova escola. Assim o faz a solitária mãe. A etapa seguinte, descobrem os três, envolve dinheiro.

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Enquanto a mãe se assusta com os valores dos uniformes, Nuria acaricia o emblema do colégio. O movimento das mãos denota esperança. Mais que mera insígnia, afinal, o símbolo inscreveria a menina em uma coletividade. Não mais um ente sem voz, Nuria seria uma estudante. Só que fantasmas não estudam. Aí reside a armadilha do nome Amparo. Vocábulo comum às línguas portuguesa e espanhola, “amparo” associa-se à ideia de proteção. Fantasmagorizado o pai, caberia à mãe, sozinha, sustentar – tanto financeira quanto emocionalmente – os filhos. A tarefa pesa sobre os ombros de uma desamparada Amparo.

Resumida no mutismo de Nuria, à família falta não só a voz, mas também um corpo. Pouquíssimas pessoas interagem com a menina, nota-se ao longo da projeção. As reivindicações da mãe, de modo semelhante, não se fazem ouvidas nem mesmo nas assembleias da Ilha da Fantasia – sugestivo lugar onde se passa a história. Nesse sentido, sucessivos planos mostram os familiares em exercício de escuta, mas jamais de fala.

Se há fantasia, portanto, ela se reserva aos minutos finais. Na chamada assembleia de fantasmas, reconfiguram-se a voz e a mudez, o visível e o invisível. O fosforescente do brinco e o ineditismo da voz não deixam dúvidas: Nuria está lá para ser vista e ouvida, para garantir um lugar. Esse lugar, essa comunhão ou partilha, ela traça com as demais partes por meio de uma condição comum: a própria exclusão, herança de uma descendência campesina.

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* O filme estreia dia 11 de abril, quinta-feira.


Fotos e Vídeo: Divulgação/Vitrine Filmes

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Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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