Assustador… dentro e fora da tela

De tempos em tempos assistimos a filmes que encontram-se na linha tênue e desafiadora entre envolver o espectador em determinada situação e ainda permanecer autêntico, recusando-se a enfeitar ou embelezar a história na tela do cinema. “Clash”, do diretor Mohamed Diab, é um desses filmes. E ele tem um desafio ainda maior: transmitir o horror de estar no meio de um país em guerra. Após o filme-denúncia “Cairo 678”, o diretor egípcio nos traz mais um filme empolgante.

Trabalhar a realidade atual do seu país parece ser a missão escolhida pelo profissional. E se essa é a sua missão, os temas seriam inesgotáveis. Em “Clash”, para explicar o caos no Egito pós revolução, Diab construiu uma fórmula inteligente: direção de câmera incrível, edição de som eletrizante, fotografia genial e um set sufocante. O filme se passa em 2013, dois anos após os protestos na praça Tahrir. O drama sobre o caos e a crueldade é assustadoramente natural e acontece, inteiramente, em um camburão policial em meio a protestos violentos e bombardeios de guerra.

O automóvel transporta várias pessoas entre jornalistas e manifestantes, que estão em conflitos entre eles, em uma angustiante proximidade. A obra mostra a relação de prisioneiros de grupos opostos (Muçulmanos e simpatizantes do exército) sem escolher lados ou julga-los. Ao invés disso, apresenta um grupo de pessoas comuns forçadas a participar de facções por circunstâncias variadas.

Mohamed Diab nos proporciona com sensibilidade e realidade chocantes, toda a injustiça vivida por essas pessoas. Injustiça que aos poucos vai tornando esses personagens donos de uma fúria inesgotável. E, como um tapa na cara, vemos todo o senso de injustiça e o tratamento cruel em torno deles. O interessante é que conforme vamos conhecendo tais pessoas, nossa empatia por elas vai crescendo. São personagens que não são particularmente violentos ou perigosos mas, mesmo assim, são tratados de forma rude e desumana. E até certo ponto conseguimos traçar um paralelo com as histórias de tratamento igualmente desumanos e brutais da polícia no Brasil dentro das favelas e comunidades mais carentes ou contra manifestantes nas ruas.

“Clash” é de tirar o fôlego. Conforme o camburão segue o seu caminho, nós vemos cenas de caos pelas janelas do carro, o que aumenta a tensão e nos deixa mais e mais desconfortáveis na poltrona ao longo da projeção. Se estar no meio de um tumulto entre bombas e tiroteios já é aterrorizante, imagina estar preso em um camburão da polícia!

Mohamed Diab escolheu, inteligentemente, o pequeno espaço claustrofóbico de um carro para nos mostrar, com um excelente trabalho de câmera e de atores, uma realidade cruel. E o impacto nos espectadores é gigantesco. Ao final da história, “Clash” nos deixa horrorizados. E essa é a intenção dele. Saímos da sala de cinema com toda a reverberação do conflito na cabeça. E Diab nos faz perceber que a realidade é muito mais complexa do que “certo e errado” e que apenas escolher cegamente um lado da história é simplesmente impossível ou, pelo menos, seríamos insensíveis às circunstâncias.


Por Thiago Pach


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