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CríticaFilmes

Crítica: Corpo e Alma

Rita Constantino
17 de fevereiro de 2018 3 Mins Read

Corpo e Alma posterA princípio, tudo em “Corpo e Alma” parece frio. Das cores à luz, dos planos aos personagens, tudo transparece frieza, uma atmosfera gelada como a da floresta que abre os primeiros minutos de projeção. Entretanto, por baixo da cobertura de gelo, o longa dirigido e escrito por Ildikó Enyedi – representante da Hungria ao prêmio de melhor filme estrangeiro da Academia – é tenro, doçura que, ao poucos, descobrimos também na profundidade de seus protagonistas.

A floresta é central para a narrativa, mas a trama se desenrola em um abatedouro chefiado por Endre (Géza Morcsányi), um homem de meia idade que se vê interessado por Mária (Alexandra Borbély), uma mulher de hábitos estranhos recém-chegada na empresa para substituir temporariamente o inspetor de qualidade. Silenciosa, ela evita contato interpessoal e executa seu trabalho com um rigor que incomoda.

A relação entre os dois se estreita quando, depois de passarem por uma sessão com uma psicóloga, sugestão da polícia para encontrar o responsável pelo desaparecimento de um dos produtos de cuidado com o gado, descobrem que têm tido o mesmo sonho: que são cervos, ele o macho da espécie, ela a fêmea, e correm, juntos, por uma floresta coberta de neve. Dessa coincidência, eles passarão a se aproximar para entender a natureza dessa ligação e descobrir os sentimentos que tem um pelo outro.

A premissa parte do extraordinário, mas é através dele que a cineasta húngara conta, com graça, uma história de amor pouco comum. Não há paixão imediata ou uma afeição que cresce de súbito. Até a velha estrutura do romance que floresce aos poucos, da qual mais se aproxima a narrativa, é aplicada de forma singular. O casal principal não tem um relacionamento trivial e ela sabe como trabalhar essa característica.Corpo e Alma 9

Traçando paralelos, simetria presente desde o título da produção, Enyedi materializa na direção a dinâmica entre esses personagens. Junto com trabalho de montagem de Károly Szalai, em pequenos detalhes a diretora consegue mostrar como a dupla vive em mundos opostos: enquanto vemos Endre sentir o calor do sol que entra pela sua janela, Mária se esconde nas sombras, já quando a mesa de café da manhã da garota é meticulosamente limpa, a do chefe financeiro do abatedouro é rodeada de farelos e indesejáveis moscas.

Mesmo consciente das diferenças entre seus protagonistas, “Corpo e Alma” é sobre a aproximação entre os dois indivíduos. Intimidade que a cineasta imprime a sua câmera, valorizando enquadramentos fechados, que parecem ainda menores à medida que a ligação entre eles aumenta. Após a primeira noite que o casal se telefone antes de ir dormir, episódio importante para sua relação, o encontro entre eles não é só fotografado em um close, mas também com uma profundidade de campo pequena; eles existem apenas um para o outro naquele momento.

Sensibilidade que também transpira na fotografia de Máté Herbai, que mais do registrar belas paisagens das esferas dos sonhos, utiliza seu trabalho como forma de transmitir a dualidade dos protagonistas. Através da luz, por coincidência ou não, muitas vezes faz com que, em um mesmo enquadramento, Endre se mantenha iluminado e Mária não, mais uma forma que o projeto encontra de representar suas personas.

Por falar em persona, os intérpretes dos personagens principais, Géza Morcsányi e Alexandra Borbély, são agradáveis surpresas. Em seu filme de estreia, Morcsányi compõe Endre com melancolia de um homem maduro e solitário, mas que ainda enxerga a vida com certa curiosidade. Já Borbély brilha como Mária, injetando certa doçura em uma figura que sem querer é fechada para o mundo e sabe pouquíssimo – talvez quase nada -, sobre ele.

Delicado, “Corpo e Alma” é como um dos pequenos prazeres sentidos pela sua protagonista. Toca-nos aos poucos como a sensação de pisar na grama molhada ou o carinho de uma pessoa querida; quando nos demos conta, já estamos arrebatados.

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9.2
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Melhor Filme Estrangeiro

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Me siga Escrito por

Rita Constantino

1995. Cobra criada em Volta Redonda. Um dia acordou e queria ser jornalista, não sabia onde estava se metendo. Hoje em dia quer falar sobre os filmes que vê e, se ficar sabendo, ajudar o Truffaut a descobrir com que sonham os críticos.

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