Crítica: Devorar

Katelin Arizmendi.

Discussões sobre a vida das mulheres deveriam ser feitas pelas próprias mulheres, mas não é isso que acontece em uma sociedade dominada pela figura masculina que toma conta dos governos, das religiões e das famílias. O sofrimento do sexo feminino se intensifica de várias maneiras, principalmente quando a maternidade entra em foco, com o aborto como tema central. Todas essas questões são discutidas no filme “Devorar” de Carlo Mirabella-Davis, que segue a vida de Hunter (Haley Bennett), depois de casar-se com o rico Richie (Austin Stowell), passando também a conviver com o pai (David Rasche) e a mãe (Elizabeth Marvel) do rapaz, em uma bela casa. Com o marido sempre trabalhando e com as constantes intromissões dos sogros, Hunter se sente perdida no próprio casamente. Em decorrência disso, ela desenvolve uma inesperada vontade de engolir vários tipos de objetos.

A compulsão por engolir, para depois expurgar de forma dolorosa, é negação antecipada ao bebê que descobre estar esperando. Ela diz à psicóloga contratada pela família que o prazer vem ao sentir o gosto e a textura dos objetivos em sua boca antes de engoli-los, e não da ação de engolir. Aí surge o paralelo com o sexo feito de forma quase animal com o marido. Há o prazer do ato, mas não a vontade de engravidar. Agora seu corpo foi invadido por um “objeto estranho”, e não há a certeza se deve mantê-lo ou não. Essa dúvida é externada quando, ao decorar o quarto do bebê, ela deixa metade da janela de vidro coberta com uma película vermelha, enquanto a outra metade mostra a vida da floresta do ambiente externo. Vida e morte em plena disputa naquele espaço.

Bem, tudo piora quando Hunter descobre que o marido é um crápula abusador. Então, passar por uma gravidez indesejada e ainda de um homem desprezível é algo extremamente difícil.  Sem ninguém para apoiá-la – mesmo casada, vivia solitária – terá mais um obstáculo para superar sozinha e depois esperar por algo melhor, que pode nunca vir. Como desgraça pouca é bobagem, ainda há traumas não superados do passado. Traumas esses que não serão comentados neste texto para evitar spoilers. O que pode ser dito é que Hunter possui, além da compulsão por engolir objetos, problemas psicológicos causados por atos graves cometidos por seu pai, e esses são de difícil resolução.

Para carregar toda essa complexidade que a trama apresenta, era preciso uma atriz competente, e o trabalho de Bennett merece ser reconhecido. A atriz cria uma mulher confusa com seus próprios atos. Sua voz gentil e condescendente esconde uma pessoa destruída, o que aflora com choros espontâneos e desesperados. Sua submissão vem através de sua linguagem corporal composta pela cabeça baixa e pelas costas levemente inclinadas. Os olhos marejados e as palavras que querem sair da boca, mas que ficam apenas nos balbucios, completam essa figura subjugada.

Claro, não é para menos, já que a pressão é enorme, e a direção de Mirabella-Davis destaca isso ao colocar a mulher sempre em posição de inferioridade, como nos planos que mostram seu marido em um local mais elevado. A cena em que ela trabalha em um jardim enquanto ele a vigia de uma janela superior é um exemplo. Há também o cerco feito pela família do rapaz, com a mãe, o pai e um segurança a rodeando. Então, mesmo em uma mansão exageradamente espaçosa, ela quase não consegue respirar ou pensar por si mesma. Hunter, ao contrário do que significa seu nome, será a caça em uma selva dominada por predadores irracionais. Infelizmente, essa é a situação de muitas mulheres no mundo real e dito civilizado.

* Este filme foi visto durante a 43ª Mostra de Cinema de São Paulo.

 

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