Crítica: Dolores

Argentina, 1939. Segunda Guerra Mundial. Após a morte da irmã, uma mulher retorna à terra natal para conhecer seu sobrinho e ajudar sua família a se restabelecer. Assumindo as rédeas dos problemas domésticos, ela entra em um impasse quando vê seu amor dividido entre o cunhado e o vizinho.

Drama histórico e triângulo amoroso: esses são os pilares do esquecível “Dolores”, coprodução argentina e brasileira que mesmo exibindo pontos positivos, com o tempo será engolida pelo mar de filmes de temática similar – alguns, inclusive, que se saem melhor na mesma tarefa.

Escrito e dirigido pelo cineasta argentino Juan Dickinson em seu segundo longa ficcional – boa parte de seu trabalho até então tem sido dedicado a documentários -, no filme acompanhamos os conflitos dos Hillary, uma família latina de sangue britânico que vê sua dinâmica modificada 360 graus com a chegada da personagem título.

Interpretada com competência por Emilia Attias, ao voltar a seu país de origem depois de anos morando na Escócia, Dolores tem que lidar não só com o falecimento de Helen, mas também com as manias autodestrutivas de Jack (Guilhermo Pfening) que, além de perder a esposa, está endividado e prestes a perder sua fazenda. Somado a isso, tem que conviver e com a frieza de Fleurrie (Mara Bestelli), irmã de seu cunhado, que não vê com bons olhos a forma como a moça começa a tomar o comando da casa. A situação fica complicada quando ao mesmo tempo em que passa a se envolver com Jack, ela se descobre atraída por Otávio Brandt (Rodrigo Birindelli), alemão proprietário de terras vizinhas que se dispõe a ajudar a solucionar os problemas da família.

Ganhando vida nos pampas argentinos, “Dolores”, do ponto de vista técnico, é bem executado. Correto em sua direção – às vezes beirando ao convencional – Dickinson é bem sucedido em solidificar sua atmosfera de memória – o longa não só retrata uma época, como também uma lembrança que parte de Harry (Felipe e Mateo Flossdorf/Matías Mayer), sobrinho da protagonista. Com a chegada da jovem ao Los Ombués, a propriedade dos Hillary, a atenção da câmera a um balanço vazio, um moinho de vento parado e uma piscina coberta de folhas são o necessário para preparar o espectador para o que ele tem que esperar: um lar fragmentado à espera de coesão.

O elemento de união dos pedaços partidos? Dolores. Recriando um período histórico, o filme tem um trabalho delicado de composição de figurino e cenografia, mas seu mérito não é apenas em ressuscitar nas telas a moda dos anos 40. Nas roupas, a produção consegue incorporar os conflitos da narrativa, ressaltando o papel conciliador da protagonista. Em um ambiente em que predominam o marrom, o branco e o verde, Dolores traz consigo o azul, uma cor que pouco aparece em outros personagens. Ela é uma figura até então estrangeira naquela comunidade que, porém, atua como agente de transformação.

Entretanto, mesmo que direção, fotografia e design de produção façam algumas escolhas interessantes, na trilha sonora é que o filme começa a dar suas derrapadas. Aplicando-a de forma equivocada, momentos em que a emoção deveria ficar por conta do trabalho dos atores são sufocados pela entrada de arranjos dramáticos, redundantes. O efeito não poderia ser mais canastrão. Uma cena, por exemplo, em que Dolores tenta acalmar Harry quando para descontar sua frustração o menino quebra enfeites de porcelana, é acompanhada de “tocantes” acordes de violino.

No roteiro, a canastrice continua. É fato que ele acerta quando evita construir os personagens de forma maniqueísta – apesar de muitas vezes não entendermos suas motivações – e basear suas relações nesse recurso, mas mesmo assim acaba inflamando o conflito entre Dolores, Jack e Otávio através de ideias já naturalizadas no senso comum.

Buscando respaldo em seu pano de fundo histórico, a Segunda Guerra Mundial, um momento de embate entre os dois homens acontece pelo fato de a nacionalidade alemã do latifundiário interpretado por Birindelli indicar que ele simpatize com o governo de Adolf Hitler. Em uma sequência constrangedora, Brandt e Hillary se agridem fisicamente em uma sessão de filmetes sobre os avanços da conflagração na Europa, após o primeiro fazer o gesto de saudação nazista. É mais do que claro que não há defesa possível para a ideologia sustentada pelo regime político vigente na Alemanha do período, mas isso não é desculpa para criação de conflitos simplistas através de críticas preguiçosas deste nível.

Em seu desfecho, “Dolores” surpreende, porém não tem o necessário para salvar-se do esquecimento. Não é um filme que possa ser considerado ruim, mas se seus defeitos o impedem de compor uma obra relevante, suas qualidades tampouco.

O filme estreia dia 06 de abril nos cinemas brasileiros.

Crítica: Dolores
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