Naima (Alia Shawkat) e Sergio (Laia Costa) não querem cumprir as formalidades que iniciar um relacionamento exige. São estranhas uma a outra, mas não querem ter que trocar flertes por mensagens instantâneas, nem ter que se submeter a uma cota de encontros para se considerarem íntimas. Passar 24 horas juntas talvez baste. É o que fazem: compartilham momentos de privacidade, descobrindo-se entre o gozo e a cólera. A experiência – fictícia, porém exemplar – é a nova provocação de Miguel Arteta, “Duck Butter”, um ensaio sobre afetividade que nem sempre acerta em suas intenções, mas que consegue ser enervante o suficiente para estremecer concepções confortáveis sobre a vida a dois.

Naima – ou Nima, como ela mesma se apresenta – é uma jovem atriz contratada para o maior papel de sua carreira, um filme dos irmãos Duplass, que depois de um primeiro dia de gravação pouco amigável, acompanha uma amiga (Mae Whitman) a um bar onde Sergio se apresenta. Atraída pela energia que a excêntrica cantora espanhola emana, não demora até que elas se envolvam. O que poderia ser o caso de uma noite, entretanto, torna-se grave quando as duas, ébrias pós-sexo, sugerem evitar cerimônias e se conhecer a fundo dividindo o teto por um dia, transando a cada hora, compartilhando sem pudor o mesmo banheiro e assistindo de perto ao que têm de melhor e pior.

O resultado desse experimento é íntimo, às vezes claustrofóbico. São 95 minutos do casal encerrando sob quatro paredes, em uma dinâmica que observamos através do olhar naturalista do cineasta porto-riquenho que se mune de uma câmera flutuante, de enquadramentos fechados, de closes e planos-detalhe em toques, gestos e objetos que ganham novos significados com o relacionamento em construção. Os episódios de sexo que, com a pretensão das protagonistas, são muitos, têm honestidade não só na representação do prazer entre duas mulheres – importância da fotografia ter sido feito por uma, a cinematografista Hillary Spera -, como da apreensão crescente entre elas. Conflito posto em carne-viva pelo diretor que, no registro do silêncio ou na recusa polida de um carinho, aponta que a estrada que suas personagens seguem é mais da dor do que do amor.

As performances principais são indispensáveis para a compreensão desse sentimento. Responsável também pelo roteiro ao lado de Arteta, Alia Shawkat faz jus ao título de ser um dos talentos da sua geração, entregando com sensibilidade uma mulher de vinte-e-poucos-anos insegura, que deposita no romance por uma pessoa tão oposta a ela o desejo de fuga da própria vida. Expressiva, com poucos trejeitos consegue transformar deslumbramento em desconforto; se no princípio seus olhos transbordam admiração, próximo ao desfecho, clamam por ajuda. Laia Costa, por sua vez, compõe uma garota explosiva que se gaba da liberdade que tem, mas que no fundo é tão vulnerável quanto sua nova parceira. Abraçando a natureza oscilante de Sergio, ostenta no rosto miúdo um semblante desafiador, mas na voz só se percebe dúvida.

Todas as qualidades de “Duck Butter”, entretanto, entram em choque com problemas significativos no roteiro. Apoiando-se em recursos escatológicos a fim de estabelecer sensação de intimidade, a produção, de vez em quando, cai em situações tolas – e dispensáveis -, como Sergio gravar no celular o som dos próprios gases para que Naima, como vingança, envie aos os diretores que a demitiram. Já impasses importantes, como a cantora apresentar a mãe (Angelina Llongueras) à namorada, parecem mal arquitetados e causam menos impacto do que deveriam. O desenvolvimento da jovem estrangeira também sai prejudicado, porque mais que ela manifeste nuances em seu comportamento, sua faceta eufórica às vezes beira a caricatura, o que cria um contrassenso perigoso para o filme: enfraquece sua construção do real.

Ainda assim, a parceria entre Shakwat e Arteta não é menos desafiadora.  É ver em horas o nascimento e a morte de um relacionamento que parece ter durado anos e ter certeza de que por mais que o amor seja uma construção diária, o fugaz também é capaz de nos modificar.

“Duck Butter” está disponível no catálogo da Netflix

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Rita Constantino

1995. Cobra criada em Volta Redonda. Um dia acordou e queria ser jornalista, não sabia onde estava se metendo. Hoje em dia quer falar sobre os filmes que vê e, se ficar sabendo, ajudar o Truffaut a descobrir com que sonham os críticos.

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