Sete anos depois de “Gnomeu e Julieta” (Gnomeo & Juliet, 2011), os pequenos seres mitológicos estão em alta novamente. Em maio, os cinemas brasileiros receberão “Sherlock Gnomes e o Mistério do Jardim” (Sherlock Gnomes, 2018), continuação direta da história estrelada pelo par romântico de Shakespeare. Dois meses antes, no entanto, estreia em circuito nacional “Duda e os Gnomos” (Gnome Alone, 2017), aposta da Imagem Filmes para conquistar o público infantil.

Na animação, produzida por John H. Williams (da franquia Shrek) e dirigida por Peter Lepeniotis (O Que Será de Nozes?), a jovem Duda – em inglês, Chloë (voz de Becky G) – se muda com a mãe (em inglês, voz de Tara Strong) para uma antiga e assustadora casa, apelidada por crianças de “Castelo do Frankenstein”. Explorando a nova morada, a menina encontra uma reluzente pedra verde e resolve transformá-la em um bonito colar. Depois emprestá-lo para a garota mais popular de seu colégio, a esnobe Bárbara – em inglês, Brittany (voz de Olivia Holt) -, estranhas e famintas criaturas roxas – os troggs – começam a aparecer em sua cozinha. Duda precisa, então, unir-se aos gnomos falantes de seu jardim e ao vizinho nerd Liam (em inglês, voz de Josh Peck) para recuperar a “pedra-chave” e neutralizar os monstrinhos.

O título original do filme, Gnome Alone, remete a um grande sucesso dos anos 1990, “Esqueceram de Mim” (Home Alone, 1990). Assim como Kevin McCallister, personagem interpretado há quase três décadas por Macaulay Culkin, Duda também defende seu lar de invasores enquanto a mãe viaja. As semelhanças entre as duas produções, contudo, param por aí. Se o clássico dirigido por Chris Columbus oferecia uma honesta diversão para toda a família, “Duda e os Gnomos” falha até mesmo em seus objetivos mais básicos.

Um dos principais culpados por esse insucesso, o roteiro, escrito pela dupla estreante em longas-metragens Michael Schwartz e Zina Zaflow, constrói personagens tão desinteressantes quanto genéricos. Duda, a protagonista, não passa de uma irritante aborrecente. Liam, por outro lado, apresenta-se como um atrapalhado contraponto. Bárbara, por fim, mais parece uma versão animada de Regina George, a antagonista de “Meninas Malvadas” (Mean Girls, 2004), mas sem o preciso humor do texto de Tina Fey. Em meio a esse enfadonho universo, nem mesmo os carismáticos gnomos conseguem prender a atenção do espectador.

Mais grave, porém, é o discurso construído ao longo do filme. Para proteger sua casa e vencer os troggs, Duda precisa, em última instância, se livrar da bateria de seu celular. Por meio dessa solução final, o aparato eletrônico revela-se como o verdadeiro vilão da narrativa. Delineia-se, dessa forma, um conservador olhar sobre a relação entre juventude e tecnologia, manifesto com ainda maior veemência no plano seguinte. Enquanto Duda dorme, um livro ocupa a sua mesa de cabeceira. Aos poucos, uma flor se deita sobre ele, e o sol invade o quarto da menina. Há, nessa cena, simultaneamente, uma moralista condenação do celular e uma ultrapassada ideia de superioridade da arte literária.

Ao tentar aproximar-se de seu público-alvo, “Duda e os Gnomos” reflete, enfim, apenas a limitada e preconceituosa visão de seus criadores. Prejudicado ainda por um confuso roteiro e por repetitivas piadas, o produto final desperta, quando muito, a indiferença. Ainda que o universo ficcional esteja à beira do colapso, o espectador não consegue se importar com os inverossímeis personagens. 

* O filme estreia dia 1 de março, quinta-feira.


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Luiz Baez

Carioca de 24 anos. Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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