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Crítica

Crítica (2): É apenas o fim do mundo

Louis está de volta à cidade onde nasceu e que deixou para trás há muito tempo. Ele é um estranho para seus irmãos e para sua mãe; a volta é carregada de amargura, com conversas intensas; as roupas encharcadas de suor, por causa do calor intenso, mas principalmente pela tensão que impera na casa. Xavier Dolan filma em planos fechados, sufocando seus personagens, sufocando os espectadores. Sua câmera passeia em planos sequenciais nos corredores mal iluminados, fazendo um paralelo com a vida daqueles personagens.

As lembranças que Louis possui do passado naquela casa são lembranças onde a irmã, o irmão e a mãe não estão inclusos, reforçando a sua falta de identidade com todos.  A sequência em que ele abraça a mãe é reveladora ao mostrar o grau de degradação do seu relacionamento com a família, já que Dolan ilumina a cena de uma forma com que pareça que ele está abraçando o vazio, enquadrando apenas o rosto de Gaspard Ulliel. Ele olha em direção a uma janela aberta, como se quisesse fugir daquela situação. Logo depois Dolan afasta a câmera para mostrar cada um em uma extremidade do quadro, com aquele mesmo vazio entre os dois.

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Como em todos os filmes de Dolan a figura da mãe está presente, mas Louis não sente ódio por ela, parece apenas não sentir nada, assim como pelo irmão e pela irmã, conseguindo apenas uma fagulha de cumplicidade com a cunhada, que não possui seu sangue.

“É apenas o fim do mundo” é um filme de diálogos, construído para que as atuações de seus atores sejam o ponto crucial para o desenvolvimento da trama, então o elenco não poderia ser menos do que fantástico. E ele o é, pois trás os nomes de maior peso do cinema francês da atualidade. Começando com Gaspard Ulliel, que possui uma sensibilidade incrível em criar um Louis que se expressa com os olhos, usando poucas palavras, além de se manter com o corpo reprimido, como se estivesse acuado por aquelas pessoas. Vincent Cassel, o irmão mais velho, cria uma figura bruta, que parece carregar o ódio em suas entranhas, ele nunca mantém contatos visuais longos, sempre dando as costas nos diálogos da família. Marion Cotillard dá vida à cunhada, que parece um animal ferido, não conseguindo controlar o marido ou até a própria dicção, passando insegurança, mas, surpreendentemente, sendo forte em alguns momentos.  Nathalie Baye, a mãe, é a síntese da falência daquela família, ela se mostra feliz em alguns momentos, se maquia e se veste como jovem, mas é em seu choro e em sua compulsão pelo fumo que vemos sua verdadeira persona. Léa Seydoux, a irmã, transmite carência e rebeldia, com uma personagem que parece perdida, não possuindo um local no mundo.

Mas, após todos os embates, as cenas constrangedoras e os momentos de demonstração de ódio, fica a pergunta: por que Louis Volta? O roteiro dá algumas pistas do motivo, como nas constantes vezes em que ele verifica as horas em seu relógio de pulso ou em um antigo cuco, mostrando assim a sua preocupação com o tempo, ou com o que lhe resta desse tempo. Há também a cena fantasiosa do pássaro do cuco ganhando vida, ele voa desgovernado pela casa e bate nos móveis até encontrar a janela, aquela mesma que Louis encara anteriormente, mas, quando ele tenta alcança-la, cai no chão e morre. Remorso, conciliação, aceitação ou despedida, todos parecem ser os motivos que fazem Louis voltar, mas em nenhum momento ele chega a alcançar alguns deles, já que nunca conseguirá ser aceito em meio a todas as feridas que o passado deixou. Então, diferente do pássaro, Luis sai da casa para que sua morte não seja presenciada.

 

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Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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