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CríticaFilmes

Crítica: Escobar – A Traição

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Luiz Baez
21 de agosto de 2018 3 Mins Read
“Graças àqueles homens, choveria cocaína nos Estados Unidos.”

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Em 2007, a jornalista Virginia Vallejo publicou Amando Pablo, Odiando Escobar (Amando a Pablo, Odiando a Escobar), autobiografia sobre sua relação com o narcotraficante. Dez anos depois, palavras transformaram-se em imagens. Exibido pela primeira vez no último Festival de Veneza, “Escobar – A Traição” (Loving Pablo, 2017) chega esta semana aos cinemas brasileiros.

No longa-metragem, escrito e dirigido por Fernando León de Aranoa (“Segunda-feira ao Sol”), o casal espanhol Penélope Cruz (“Vicky Cristina Barcelona”) e Javier Bardem (“Onde os Fracos Não Têm Vez”) dá vida aos amantes colombianos. Contra as expectativas, contudo, não se trata de um filme sobre o envolvimento entre ambos. O roteiro acompanha o traficante do apogeu à morte, ao passo que gradualmente se esquece de Virginia. Resgatada apenas em redundantes voice-overs, a jornalista torna-se mera narradora.

Com pouco destaque em tela, Cruz tampouco se sobressai no trabalho vocal. Seu monocórdio tom empresta ainda mais irregularidade a uma condução já carente de ritmo. Nesse sentido, a escolha da produção por um inglês carregado no sotaque latino certamente não favorece. Mesmo assim, porém, Bardem brilha. Seu Escobar, tão carismático quanto inescrupuloso, resulta de uma verdadeira entrega do ator à personagem. Completam o elenco nomes como o estadunidense Peter Sarsgaard (“Educação”), no papel do agente anti-drogas Shepard, e a colombiana Julieth Restrepo (“Mamá”), intérprete da esposa de Pablo, Maria Victoria Henao.

Quanto à falta de escrúpulos do protagonista, por sinal, Aranoa nada esconde. A certa altura, o montador Nacho Ruiz Capillas (“Os Outros”) acavala gráficas imagens de violentas mortes, acompanhadas por uma agitada música de Federico Jusid (“O Sequestro”). Após a desagradável experiência, uma pergunta paira no ar: são aqueles corpos tão banais para o diretor quanto para os criminosos? Não obstante sua vontade, a apresentação espetacularizada sugere resposta positiva. Em meio à rápida sucessão de cadáveres, não se reserva, afinal, qualquer espaço para reflexão.

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Apesar dos múltiplos problemas, entretanto, alguns pontos positivos merecem menção. Em termos narrativos, discussões sobre o terrorismo de Estado adicionam uma camada crítica aos diálogos. A respeito do tratamento audiovisual, por sua vez, três momentos se destacam. No primeiro deles, um avião cargueiro pousa nos Estados Unidos ao som de Let it Snow. A música, traduzida como “deixe nevar”, cria irônico contraste entre o branco da cocaína e o branco da neve. No segundo exemplo, imagens de arquivo de Nancy e Ronald Reagan aparecem no visor de uma câmera em primeiro plano, com dublês desfocados ao fundo. Misturando realidade e ficção, a cena coloca o espectador nos bastidores dos acontecimentos. Por último, em determinada sequência, Pablo convence a mulher de que terminaria o caso com Virginia. Aliviada, ela ri. A risada da esposa dá, então, lugar à risada da jornalista, assistida na televisão pelo filho do traficante.

Sob o pretexto de adaptar o livro de Virginia Vallejo, lançado no Brasil pela editora Globo, “Escobar – A Traição” limita-se, por fim, a recontar a já conhecida história do protagonista. No irregular trajeto, péssimas decisões sufocam, como visto, as poucas boas ideias. O resultado é, antes de tudo, um filme de ator. Como a personagem por ele vivida, Javier Bardem passa por cima de tudo e todos – até mesmo da esposa – para roubar a cena. Nem o seu impressionante comprometimento, no entanto, é o bastante para justificar as mais de duas horas de projeção.

* O filme estreia dia 23, quinta-feira.

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Luiz Baez

Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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