Crítica: Esquadrão Suicida

Do Caos ao Pop

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Em uma época em que o cinema vem apostando cada vez mais fichas nas histórias em quadrinhos, principalmente aquelas de contexto e personagens bem definidos, devido ao sucesso estrondoso de alguns produtos e o desaparecimento de bons roteiros originais, não seria difícil acreditar que a qualidade da trama de algumas dessas produções estaria garantida. Entretanto, não é o que vem acontecendo dentro da milionária parceria que envolve a DC Comics e a Warner Bros. O filme “Esquadrão Suicida”, o mais novo produto a sair desse casamento, diretamente para os cinemas, acaba por ser uma grande prova de que muito ainda precisa ser feito.

Criado em 1959, os primeiros personagens do intitulado “Esquadrão suicida” eram apenas criminosos comuns que era forçados a lutar pelo próprio país nas guerras. Foi somente em 1986 que a segunda formação surgiu trazendo os supervilões da DC, sob o comando da arrogante Amanda Waller e de Rick Flag. Com isso, criminosos de alta periculosidade foram direcionados a fazer parte de uma força tarefa secreta responsável por enfrentar perigos de quase morte em prol da diminuição da pena para cada caso de sucesso. Ou seja, se eles realmente quisessem sair mais cedo da prisão teriam que enfrentar a morte em diferentes situações a partir de causas destinadas pelo governo. E se fugissem, teriam o destino selado pelos próprios “contratantes”. Essa nova formação foi a responsável pelo grande sucesso desses mercenários, chamando atenção daqueles que apreciavam o lado vilanesco de uma boa historia. O filme que estreia hoje nos cinemas faz de tudo para abordar exatamente esse mesmo caminho, mas tropeça em algumas pedras.

Tudo começa a partir da trágica morte do Superman, acontecimento que deixou parte da humanidade desprotegida e aflorou o medo de muitos em relação a existência de meta-humanos. O Governo americano, receoso do surgimento de novas ameaças, decide então por aprovar um programa de proteção e combate criado pela diretora Amanda Waller.

A produção, desde quando começou a ser divulgada, parecia que iria manter a atmosfera sombria, repleta de mistérios e referências culturais que colocariam outros filmes do gênero de lado. Contudo, o mesmo degringola para um formato muito mais pop, repleto de ação e efeitos especiais  que tomam espaços de cenas que poderiam ser melhor aproveitadas. Parando para pontuar aqui os efeitos especiais, esses estão maravilhosos em quase todo momento, tirando a luta final da entidade que é irmão da personagem da “Magia” contra “El Diablo” (quando esse se transforma). Nesse ponto, o CGI parece ter sido feito por uma equipe completamente diferente, interessada em estragar o bom desempenho dos demais.

Embora o grande problema do filme não seja o roteiro de David Ayer, que tenta a todo custo manter a fidelidade da obra, esse ainda apresenta algumas falhas ao incluir cenas desnecessárias (principalmente o final canastrão), manter diálogos forçados e perder a essência de um dos melhores vilões das histórias em quadrinhos ao transformá-lo em uma verdadeira caricatura chamativa afim de atrair a grande massa. Isso sem falar na decepção que foi ver os vilões transformando-se em pessoas boazinhas, perdendo quase que por completo aquela maldade enraizada.MV5BNTk5ZWE3ODItMjU1NS00NTVkLWJjNmUtYjc0MDhlYzE0MzM3XkEyXkFqcGdeQXVyNTE1NTQ4Mjc@._V1_SX1776_CR0,0,1776,932_AL_A direção morna de David Ayer começa sendo o grande erro do filme. O diretor se perde em seu trabalho, não consegue extrair o potencial de alguns atores e ainda se atrapalha na indefinição da linguagem escolhida por ele para contar a história, uma vez que os planos, ângulos e movimentos de câmera adotados por Ayer são praticamente abandonados no meio do caminho, destruindo toda construção psicológica e emocional da trama.

O trabalho do ótimo editor John Gilroy (responsável por “O Abutre” e “Guerreiro”) é, literalmente, dilacerado nesse filme. Não tem uma cena que não seja nítido o mal uso dos cortes, que passam como facas afiadas na carne. Sem esmero algum, a edição faz com que o filme perca completamente a fluidez das cenas e ainda detone com o serviço dos demais envolvidos no mesmo.

A bela direção de fotografia de Roman Vasyanov permeia com inteligência entre tons quentes e frios, fazendo dessa um dos pontos altos do filme, engrandecido ainda mais com o apoio do bem realizado trabalho da direção de arte que consegue resgatar com deferência cenários importantes da obra. O figurino também não deixa a desejar, se esforçando bastante para apresentar algo bonito e contemporâneo.

O elenco, que traz nomes como Will Smith, Margot Robbie, Viola Davis, Cara Delevingne e Jared Leto, funciona quase todo muito bem. Enquanto Smith encarna a sua personagem com convicção, equilibrando-se perfeitamente entre o sarcasmo e os seus medos mais profundos; Margot Robbie e Viola Davis roubam todas as cenas em que aparecem com interpretações seguras e dignas de suas personagens. Já o mesmo não pode ser dito do estranho trabalho exibido por Cara Delevingne, a modelo parece não estar tranquila em suas cenas ou não sabe o que está fazendo, principalmente quando virava a “Magia”. Outro ponto decepcionante da produção, foi a construção artificial que o Jared Leto proporcionou para o Coringa. Tentando diferenciar completamente do que já tinha sido feito pelos seus antecessores, o ator nos mostra uma espécie de “Scarface” escondido na pele de um rapper americano. Talvez se o ator tivesse mais cenas pudesse expor todo o seu potencial mas, infelizmente, na versão apresentada ele acaba deixando muito a desejar. A vontade, no fim de tudo, é assistir “Batman – O Cavaleiro das Trevas” e apreciar a transfiguração de Heath Ledger no eterno “The Joker”.

A sensacional trilha sonora tem a árdua tarefa de fazer a diferença em cima de um produto mascarado, mas também sofre devido aos cortes mal trabalhados que mais parecem querer acelerar/detonar a história. O som melancólico de algumas músicas, que se transformaram em verdadeiros hinos no decorrer dos anos, também são subaproveitadas devido ao excesso dessas utilizado para apresentar as personagens.

Com uma produção requintada, elaborada através dos mais altos padrões oferecidos pela indústria cinematográfica, repleta de astros que hoje figuram no time “classe A” do cinema americano, “Esquadrão Suicida” tinha tudo para ser o grande trunfo da DC Comics e a Warner Bros, mas peca bastante ao querer transformar personagens icônicos em arquétipos encontrados em qualquer outro filme pop de super-herói, fazendo todo aquele caos existente no enredo original se perder facilmente e de forma desnecessária.

Crítica: Esquadrão Suicida
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