Nos anos 60, em meio a corrida espacial, a ideia de que a humanidade pusesse seus pés na lua finalmente parecia um futuro próximo. Para os cientistas da NASA, a situação era mais complexa. Perder a dianteira para a URSS não era uma possibilidade, mas pequenos detalhes podiam por tudo a perder. Em “Estrelas Além do Tempo”, a sensação que fica é que a mesma lógica pode ser explicada na luta contra o racismo: se o espaço é a última fronteira a ser rompida, é porque esqueceram de contar com a intolerância.

É nesse contexto que as matemáticas Katherine, Mary e Dorothy, contratadas pela NASA, precisam provar seu valor.  Katherine é chamada para corrigir os cálculos das primeiras missões espaciais; Dorothy supervisiona suas colegas e toda uma equipe de matemáticas – também negras – mas não recebe o cargo adequado para suas tarefas; Mary quer se tornar engenheira, mas não pode assistir as aulas da universidade que lhe dará a especialização necessária. O resultado dessas empreitada  será mais uma história de fracasso ou de vitória na luta pelos direitos civis.

O filme consegue abordar a questão (mais do que atual) com diferentes nuances, mas de uma forma incrivelmente leve e divertida. Não que a luta de suas protagonistas seja diminuída. O preconceito, as dores e as agressões – das mais abertas para as mais sutis – estão alí. Mas o tom otimista desconstrói o velho preconceito de que a luta contra as opressões – raciais, de gênero, sexualidade – é feita por uma militância sem humanidade.

No elenco, o destaque vai para o trio de protagonista, embora todos entreguem um trabalho de qualidade. Octavia Spencer é a mais conhecida e querida pelo público, mas Taraji P. Henson e Janelle Monáe não ficam atrás. O carisma das atrizes e das personagens fica presente tantos nos momentos descontraídos e de tensão. A química entre as atrizes é excelente, e a amizade das três é um lembrete de que suas conquistas e batalhas não são apenas pessoais, mas também coletivas.

Para alguns, talvez “Estrelas Além do Tempo” soe como uma forma de atender a uma demanda da moda. De fato, talvez alguns anos atrás, um filme onde protagonistas negras se tornam agentes de sua vida e de seu país talvez não tivesse tanta visibilidade. Mas, nos Estados Unidos de Trump, qualquer esforço de representação de um minoria é vital, assim como cada etapa foi crucial para que  o espaço fosse desbravado.

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Luísa Lacombe

Sua formação é em cinema, e os interesses incluem televisão e quadrinhos. Nas horas vagas, faz tirinhas.

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