Crítica: Fleabag (1ª e 2ª Temporadas)

Tirando aqueles que acompanham as produções britânicas, poucos conheciam Phoebe Waller-Bridge. Como atriz ela apareceu – com sua voz apenas – em “Han Solo: Uma História Star Wars” como a androide L3-37. Bom, ela possui muitos trabalhos antes desse e passou a se destacar como roteirista e produtora na elogiada série “Killing Eve” e, principalmente em “Fleabag” onde também é a protagonista. “Fleabag” é daquelas pérolas da TV que dá gosto de descobrir, já que não conta com muito trabalho de marketing por parte da Amazon Prime, a responsável pela exibição da série no mundo. Ela é originalmente transmitida pela BBC.

Contando com duas temporadas, a produção entrou no gosto do público que sempre procura algo criativo e cativante. Com episódios curtos de aproximadamente vinte minutos e apenas seis episódios por temporada, o roteiro consegue trazer tramas sempre intensas e dinâmicas. Os diálogos escritos por Waller-Bridge são primorosos e diretos, sem sair do tema principal da série que a busca pela felicidade da Fleabag do título. Após perder sua melhor amiga, ver seu pequeno café ficar à beira da falência e não conseguir se entender com sua irmã e madrasta, ela perde o controle de sua vida ao se envolver em vários relacionamentos sexuais e frustações amorosas. Apenas como complemento, é preciso dizer que o termo Fleabag na Inglaterra significa uma pessoa, digamos desagradável.

Sim, ela é desagradável de um jeito charmoso. Seu sarcasmo é cruel, mas sempre usado em momentos oportunos. E por isso, mesmo tratando de temas tão melancólicos, o humor está quase sempre presente de forma áspera. Não espere gargalhadas e sim gostosas risadas com um texto inteligente e empoderado. Sim, é a vida de uma mulher que importa aqui, mas isso não significa que os personagens masculinos sejam vazios ou insignificantes. Eles são ótimos elementos que ajudam a protagonista a ser reconstruída e entender mais o meio em que vive. O neurótico namorado, o homem com dentes estranhos conhecido em um ônibus, o narcisista bonitão, o enigmático pai, o cunhado canalha e o padre descolado são alguns dos seres que fazem parte do universo londrino. No entanto, não se engane: a força, o senso de humor, a sensibilidade e a fragilidade feminina são os que realmente enchem a tela.  Se a protagonista é encantadora, o mesmo pode-se dizer de sua irmã Claire (Sian Clifford), um poço de desconfiança, cheia de toques e sempre em discordância com sua irmã mais nova, apesar de no fundo estar invariavelmente de acordo com ela. Clifford consegue ser engraçada mesmo sem contar nenhuma piada, pois sua presença em cena é sempre marcante. O rosto com expressões tristes e o andar desajeitado contrastam com seu sucesso profissional e com um casamento aparentemente instável, o que confere aquele pessimismo engraçado de alguém que tem muita competência para chegar onde chegou, só que não está tão feliz com a realidade.

Waller-Bridge e Clifford possuem um apoio fenomenal de atores consagrados do Reino Unido para reforçarem seus talentos. A ganhadora do Oscar de melhor atriz em 2019, Olivia Colman, faz parte do elenco recorrente e outros como Kristin Scott Thomas, Fiona Shaw e Andrew Scott dão o ar de suas graças entre as duas temporadas, trazendo grande interesse para fãs desses atores ou mesmo para os apreciadores de boas atuações.

Outro elemento de destaque é a quebra da quarta parede, com a protagonista sempre dialogando com o espectador. Claro que não é algo novo, basta lembrar da produção mais recente a utilizá-lo com sucesso: “House of Cards”. A diferença é que aqui há algumas quebras de expectativas: Fleabag faz uma pergunta para seu interlocutor e, antes dele responder, ela se vira diretamente para a câmera e responde a pergunta com a convicção de que aquela será a resposta dada. Quando a resposta não é a esperada, a surpresa da personagem se assemelha a de quem assiste.

Ela também parece ter apenas o público como amigo e cúmplice, já que é para ele que conta os seus reais sentimentos. É recorrente as cenas em que conta uma mentira para logo depois se virar para a câmera e dizer a verdade.  Há muitas variações nas cenas onde esse artifício é usado, o que deixaria esse texto longo e expositivo. Basta saber que a dinâmica da série é bem trabalhada e traz ótimos resultados com ele.

Aliando ótimo texto, direção arrojada e personagens encantadores, mesmo os “vilões”, é fácil se apaixonar por “Fleabag” e torcer para que mais temporadas sejam produzidas. Por agora, é preciso se contentar com as doze pequenas obras primas disponíveis na Amazon Prime.


Imagens e Vídeo: Divulgação/Amazon Prime Vídeo

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