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Crítica

Crítica: Fragmentado

Muito pra pouco

Entre as muitas vertentes, dentro dos estudos sobre a psiquè humana, podemos encontrar o controverso Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), no qual uma pessoa pode possuir duas ou mais personalidades. Embora existam alguns estudos e comprovações sobre esse problema, ainda é um assunto muito discutido academicamente, uma vez que os métodos para tratamento e exames para o diagnóstico não seguem um padrão estabelecido como de outros problemas psiquiátricos. Entre inúmeras produções que já abordaram o tema, seja para o humor, seja para o drama, brasileiras ou internacionais, é esse o ponto principal para o novo filme do diretor indiano M. Night Shyamalan, “Fragmentado“, que volta aos holofotes de Hollywood após alguns fracassos de bilheteria.

Na trama, Kevin Wendell (James McAvoy) é um homem retraído e solitário que não possui apenas uma, mas 23 distintas personalidades, “criadas” ao longos dos anos, que assumem seu corpo de acordo com a situação que vivencia. Entre essas personalidades estão Denis, que sofre de TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo -, Patricia, uma senhora inglesa, e Hedwig, uma criança de 9 anos, que assumem a “luz com frequência. Eles acreditam que uma 24ª personalidade, chamada de “A Besta”, assumirá o controle para cuidar da Horda, nome dado ao conjunto de personalidades que Kevin possui.

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Quem conhece e trabalha com a Horda é a Dr. Karen Fletcher (Betty Buckley) que, com um método não muito ortodoxo, acredita que o fato de Kevin ter desenvolvido tantas personalidades faz dele um humano mais desenvolvido, uma vez que para tal façanha seu corpo sofre as mais diversas mudanças, físicas, químicas e psicológicas. Porém, ela não acredita na existência da 24ª e não imagina que para recepcionar a chegada dessa personalidade feroz, de força sobre humana, Denis sequestra três garotas que estudam juntas, Casey Cooke (Anya Taylor-Joy), Claire Benoit (Haley Lu Richardson) e Marcia (Jessica Sula). Isoladas em um local desconhecido e sem saída alguma, as três terão que descobrir como escapar e/ou tentar conseguir ajuda com uma das personalidades ali presente, antes que a Besta venha e as devore, literalmente.

Para quem conhece os trabalhos famosos do diretor e roteirista M. Night Shyamalan, como “O Sexto Sentido” (1999), “Sinais” (2002) e “A Vila” (2004), sabe muito bem que o mesmo é desenvolvido para que exista uma reviravolta para que o final se torne surpreendente. Infelizmente, “Split”, título original em inglês, não conseguiu fazer como seus antecessores e a “continuação” de “Corpo Fechado” (2000) não é exatamente o que se espera.

Em mais um trabalho autoral, em que Shyamalan assina o roteiro e a direção, o longa consiste numa obra de transição de uma trilogia, que começou em “Corpo Fechado”, estrelado por Bruce Willis e Samuel L. Jackson, dando em seu final um gatilho para uma continuação e encerramento de ciclo. Porém, a dúvida que permanece é: Como roteirista, ele conseguirá preencher as muitas lacunas deixadas, assim como melhorar a justificativa banal, embora plausível, de seu final? Ainda que não confirme, a história de seu protagonista é praticamente idêntico a de Billy Milligan. Um homem que também foi diagnosticado com TDI, com 24 personalidades para sermos mais exatos, e esse diagnóstico foi utilizado para justificar e inocentá-lo dos crimes que cometeu no final da década de 70.

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Spoiler para a terceira parte?! Talvez. Além disso, cria-se uma estrutura na qual temos poucos atores e um deles possui 23/24 personas, usado incansavelmente como base para promover a produção, mas só nos é apresentado seis! Esse é um dos principais pontos que nos sentimos frustrados com o texto. Contudo, nossa frustração só não é maior por Shyamalan não subestimar a inteligência do público em nenhum momento e ser até bem esclarecedor em alguns pontos, como a criação de uma personalidade específica. Ele também nos dá uma outra perspectiva dentro da trama: ao invés de desenvolver uma narrativa em que descobrimos quem é o Kevin e como foi sua vida para chegar a tal ponto, ele nos dá a perspectiva e parte da vida de uma das garotas, a Casey.

Seu roteiro pode ser controverso assim como o tema na classe médica, mas sua direção é muito bem pontuada. Além dos clássicos enquadramentos para ambientar o espectador no espaço cênico e apresentar os personagens, ele reproduz em grande parte do filme a linguagem subjetiva. Com o intuito de traduzir visualmente o que se vê e como se vê, a centralização, nem sempre em perfeita perspectiva geométrica, se assemelha a visão humana e anseia a necessidade de descoberta. Seu trabalho aqui se assemelha a uma ideologia complementar no qual as imagens falam coisas que o roteiro não o faz e, mesmo não sendo suficientes, como já ficou claro por aqui, são um resultado interessante.

No elenco, Betty Buckley é precisa e sem muitos floreios em sua personagem, embora não seja uma atuação ímpar, ela consegue nos conduzir ao universo psicanalítico com leveza e sanidade. Já entre as jovens sequestradas, na pequena participação de Jessica Sula, ao contrário de sua personagem em “Skins“, ela não disse para o que veio. Haley Lu Richardson, de “Quase 18”, tem alguns momento bons, mas não consegue explorar a tensão necessária para sua Claire. Porém, mais uma vez, a jovem atriz Anya Taylor-Joy, de “A Bruxa”, mostra-se uma das melhores revelações dos últimos anos e faz da densa Casey, que vemos sucumbir a própria existência, um leve deleite interpretativo.

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Mas o filme, como já esperado, é de James McAvoy que passou a ganhar maior reconhecimento da indústria quando começou a fazer o Professor Xavier na franquia X-Men (“Primeira Classe”, “Dias de Um Futuro Esquecido” e “Apocalipse”). O papel, que foi cogitado para DiCaprio e chegou a ser negociado com Joaquin Phoenix, deu a oportunidade de McAvoy mostrar que é um dos melhores atores atualmente. Entre as personalidades apresentadas, sem uma caracterização exímia, ele imprime em trejeitos – voz, expressões, respiração e tom – o necessário para que identifiquemos cada um. Vale destacar sua construção para Hedwig, que consegue ter e ser o seu melhor momento na produção.

Com uma boa direção de fotografia (Mike Gioulakis), casada com a edição (Luke Ciarrocchi) que não deixa o ritmo cair e uma ótima trilha sonora (West Dylan Thordson), que nem sempre se encaixa no filme, “Fragmentado” é uma boa produção. Ainda que gere uma grande expectativa e não necessariamente possamos considerar “A Volta” surpreendente do diretor, o filme entretém e se desenvolve de maneira interessante. Entra facilmente para a lista de indicações, mas não para a lista de filmes indispensáveis.

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9.7
7.5
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Paulo Olivera é mineiro, Gypsy Lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, Bombril na vida profissional e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.

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