9 de dezembro de 2019

Na primeira cena de “A Garota de Fogo”, um professor de matemática orienta sua classe:

“Se Frederico Garcia Lorca não tivesse escrito um só verso, dois mais dois continuariam sendo quatro. Se Napoleão tivesse invadido a Espanha há 200 anos e agora estivéssemos aqui dando aula em francês, dois mais dois, ainda assim, continuariam sendo quatro. Quero que entendam que a única verdade absoluta, a única coisa que continuará sempre sendo igual, é que dois mais dois são quatro.” 

Só que quem dera a vida fosse tão segura quanto à matemática. Podemos nos agarrar a imutabilidade numérica, mas as relações humanas jamais serão simples quanto uma operação de soma.

É o que, após nocautear o espectador, nos prova o segundo longa de Carlos Vermut, um filme incomum que nos fascina pela estranheza sob a face da normalidade de seus personagens aparentemente ordinários. Escrito e dirigido pelo jovem cineasta espanhol, compadecemo-nos com o drama de Luis (Luis Bermejo), um professor desempregado que quer realizar o sonho de sua filha Alicia (Lucía Pollán), que sofre de leucemia, em ter uma fantasia exclusiva de Magical Girl Yukiko, desenho animado japonês de que a pré-adolescente é fã.

O problema é que o figurino custa 7 mil euros, valor que o homem, que tem conseguido sobreviver dos trocados que tira com a venda de seus livros a um sebo, não tem. Sua sorte muda quando em uma noite seu caminho cruza com o de Bárbara (Bárbara Lennie), uma mulher com transtornos mentais que vive com o marido psiquiatra. Dormindo com ela, Luis vê a oportunidade de conseguir o dinheiro através de chantagem. Só que ele não conhece a vida misteriosa de sua vítima, que envolvida em negócios obscuros, tem uma ligação antiga com Damián (José Sacristán), um professor de matemática que está retomando seu cotidiano após sair da cadeia.

No encontro entre as três figuras, Vermut constrói uma trama sombria muito bem amarrada que partindo de uma situação prosaica alcança, sem dó, desdobramentos violentos. Para isso a abordagem do diretor foi acertada na hora de criar impacto: minimalista, privilegia planos longos e estáticos e com cortes secos, injeta realismo em uma história que fica progressivamente mais absurda.

Além disso, na simplicidade, o cineasta faz manobras perspicazes. Através do uso do plano e contraplano, ele consegue fazer com que Bárbara e seu marido, personagens desconectados emocionalmente, sentados à mesa, pareçam estar mais próximos do que verdadeiramente estão. Já um plano detalhe de um rótulo de uísque que diz ‘Sailor Moon’, referência a outro desenho animado japonês, evoca humor negro, já que é resultado da bebida que coloca Bárbara e Luis frente a frente.

Se o trabalho de Vermut como diretor é econômico, a fotografia de Santiago Racaj também opta pelo singelo. Cores frias ressaltam a atmosfera melancólica da produção e até no que deveria existir um pouco de vida, como a fantasia e nos artigos que remetem a cultura pop japonesa da menina, as cores são pálidas e desbotadas. Apesar de no título a garota ser de fogo – remetendo à canção interpretada pelo cantor espanhol Manolo Caracol – nada de fato arde.

Na relação problemática que se desenha entre os personagens, tristeza é palavra de ordem. “Eu não gosto desses programas que vão às casas das pessoas para gravar baixarias, como que querendo dizer: Não reclame da vida, tem gente mais ferrada”, diz Luis à mulher que acaba de conhecer. Ela vê o programa para se sentir melhor com a própria vida, já ele não aguenta alguém dizer que sua dor não é merecida de ser sentida.

Mundo, demônio e carne. Esses são os três atos do segundo longa do espanhol,  em que o roteiro bem conduzido é um dos grandes méritos. O enredo não só mergulha em níveis não esperados, mas chama atenção por trabalhar bem com o que não vemos, com a sugestão. Carlos Vermut enquanto roteirista deixa lacunas e cabe ao espectador preenchê-las. Em um momento da narrativa, um dos personagens é brutalmente violentado. Nós ficamos sabemos em quais condições, mas os detalhes nunca nos são revelados. Para o bem e para o mal talvez seja melhor: o horror nunca poderia ser maior do que o do fruto de nossa própria imaginação.

O mundo seria o sofrimento – de todos os tipos – que temos que enfrentar todos os dias na nossa vida? Os demônios seriam as pessoas que encontramos, que vivem seu inferno interior e que de algum modo acabam interferindo no nosso? E a carne? A violência? A morte? Assim como outras questões em “A Garota de Fogo”, saberemos a resposta apenas se tivermos a coragem de tirar nossas próprias conclusões. Haja coragem.

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Rita Constantino

1995. Cobra criada em Volta Redonda. Um dia acordou e queria ser jornalista, não sabia onde estava se metendo. Hoje em dia quer falar sobre os filmes que vê e, se ficar sabendo, ajudar o Truffaut a descobrir com que sonham os críticos.

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