Gilberto Gil é um dos maiores nomes da música popular brasileira e ninguém de bom senso há de negar tal afirmação. Não apenas reinventou o modo de compor, de se apresentar e de se posicionar enquanto artista, manteve forte relevância ao longo das décadas e sacramentou seu nome dentro os maiores do campo artístico dentro do Brasil. Mas como ele próprio enxerga sua produção? O que é que ele pensa sobre aquilo que criou no passado, com tanto tempo de distanciamento? “Gilberto Gil Antologia Vol.1” é um conciso documentário que trata dessas questões e que tem nelas seu ponto de partida.

Trata-se de um documentário que busca seu diálogo com aqueles que já possuem alguma familiaridade com a arte de Gilberto Gil, uma vez que o filme não procura ser didático em nenhum momento e não utiliza de exposição de conteúdo mais factual. É preciso ter alguma dimensão da trajetória daquele que é o protagonista já que fases como o exílio em Londres e a prisão pouco tempo depois da vinda do AI-5 são apenas mencionadas, com foco total na música e na produção artística. “Gilberto Gil Antologia Vol.1” não quer ser, em momento algum, documentário biográfico ou definitivo sobre sua figura central. A projeção, então, se mantém na figura do próprio Gil refletindo sobre sua carreira entre 1968 e 1987, o que sugere até certo caráter episódico para o longa. Todo tempo de projeção é dividido entre imagens de arquivos, sendo fotos ou vídeos, e Gilberto Gil da atualidade comentando sobre alguns momentos, épocas e canções mais específicos.

O trabalho de seleção de material do passado e de montagem dá conta da proposta da obra e consegue estabelecer muito bem o diálogo entre aquilo que é falado, comentado, e o que vai aparecer em tela para ilustrar esse momento. Também é interessante ao balancear com precisão aquele material mais conhecido do público, como a participação de Gil ao lado dos Mutantes no Festival da Canção da Record em 1967, com outros de menor popularidade, como outras apresentações fartamente registradas que o documentário usa com frequência. Por meio desse recurso, fica bem lúdico e claro aquilo que se quer passar através do discurso, sobretudo com a presença da música do início ao fim.

Por fim, é preciso ser dito que “Gilberto Gil Antologia Vol.1” pede continuações, que certamente virão. O recorte mais específico aqui escolhido deve ficar ainda mais interessante tendo um maior alcance da obra do artista sendo retratada em tela e prestarão também de homenagem para ele.

* Filme assistido durante o Festival do Rio 2019


Imagens e Vídeo: Divulgação/Espiral

Gilberto Gil Antologia Vol.1

3.5
Bom!

​O documentário passeia por obras compostas pelo músico baiano entre 1968 e 1987. Gil revela suas visão de mundo e potência criativa em expansão no início de carreira neste turbulento momento histórico brasileiro. O filme é construído a partir de vasta pesquisa de imagens de arquivo e revisita o contexto das músicas em conversa com o próprio criador.​

Montagem
Roteiro
Direção
Pros
  • Ótimo uso de material de arquivo
  • Revela ao colocar o artista para rever sua própria trajetória
Cons
  • Pouco acessível para quem não se interessa pelo protagonista
  • Não linearidade torna o filme confuso
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Mauro Machado

Ser envolto em camadas de sarcasmo e crises existenciais. Desde 1997 tentando entender o mundo que o cerca,e falhando nisso cada vez mais.

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