Crítica: Gloria Bell

É engraçado parar para pensar que até uns 10 anos atrás o típico filme hollywoodiano, que mostrasse uma mulher na casa dos 50 tentando se reinventar,  acabaria se tornando uma história sobre casamento. Já em 2019 com a emancipação feminina cada vez mais presente na cultura, outras abordagens passam a figurar o coletivo social e a própria indústria de cinema norte americano. Isso aliado com um empoderamento de minorias latinas na direção, geram ótimas releituras de velhos arquétipos de Hollywood, como é caso de “Glória Bell” vinda do chileno Sebastián Lelio (“Uma Mulher Fantástica”).

Com 50 anos e um espírito livre, Gloria Bell (Julianne Moore) sai durante a noite buscando pelo amor em boates para adultos solteiros em Los Angeles. Sua vida muda no dia em que conhece o excêntrico Arnold (John Turturro). Sua intensidade a faz ficar alternando entre esperança e o medo da nova possibilidade que ele oferece.

O diretor Sebastián Lelio aplica aqui uma linguagem muito parecida com seu filme anterior, a de uma exaltação a figura de sua protagonista, isso desde a câmera que se mantém fixa na mesma (quando não está sempre presente), até a abordagem dos acontecimentos, vemos diversas vezes as mesmas ações, para melhor entendermos a personagem. O que pode acabar sendo visto por espectadores mais desatentos como repetitivo, na verdade é um ótimo recurso para entendermos a busca de Glória por algo novo e interessante em sua rotina diária.

Novo esse que é bem representado, em um primeiro momento, por Arnold. A imersão na rotina da personagem vivida por Moore permite que o espectador logo se atraia por ele, ja que ele oferece novos ares a estrutura já estabelecida que o filme apresenta, bem como a própria naturalidade e leveza que John Turturro concede ao personagem. Sua voz meio rouca e preocupação com uma manutenção de um status quo imagético, oferecem a Glória uma folga dos homens de seu passado e presente. Porém Arnold é mais um passo na independência da protagonista, e isso fica claro na primeira relação entre os personagens, quando o homem tira sua roupa e revela uma cinta modeladora de corpos, premeditando o futuro de decepções que ele irá gerar.

E se a cinta de Arnold já ilustra seus medos, sua dependência de uma figura feminina presente é representada pela sua carência com suas filhas. E não só ele mas todas as outras figuras masculinas no filme, são dependentes de uma “feminilidade” de suas parceiras. Ao abordar isso, o diretor contrasta ainda mais a emancipação da mulher moderna, criando um ciclo de dependência que só é quebrado com a Glória.

Julianne Moore, por sua vez, está brilhantemente como Glória Bell. O que poderia ser o típico retrato da mulher branca de classe média, ganha uma humanidade inacreditável. Seu trabalho é tão delicado que a mais simples mudança na postura da atriz, consegue transmitir uma variedade enorme de informações sobre como ela se sente. Basta ver a diferença de seu semblante na balada, e de quando visita o filho. Seus momentos cantando no carro, são de uma honestidade que figuraria em qualquer documentário.

Só é uma pena que a escolha musical seja dolorosamente óbvia, bem como o pobre recurso de fazer a personagem verbalizar seus sentimentos. E isso chega ao ápice em um dado momento, quando a personagem é deixada sozinha e canta “Alone again naturally” – algo que só não quebra o filme graças ao magnetismo do olhar de Moore ao cantar tamanha obviedade.

Com uma das melhores performances femininas do ano e uma escolha musical desinteressante, “Gloria Bell”  é mais um dos ótimos filmes desse ano sobre a emancipação e independência feminina contemporânea que ilustram que os tempos mudam, mesmo em Hollywood.


Fotos e Vídeo: Divulgação/Sony Pictures Brasil

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