Crítica: Godless

De uns tempos para cá, a frequência de séries em que seja possível uma certa reflexão e até comparação com a vida real tem sido alta. A Netflix, que cada vez mais cresce e produz suas próprias grandes obras, trouxe “Godless” no final do mês de novembro. Essa minissérie, produzida e dirigida por Scott Frank, trará noções do mundo atual em um novo contexto: o clássico faroeste americano.

Apesar de datar do final do século XIX, as semelhanças com a nossa realidade mundial são um tanto assustadoras. No caso da obra de ficção, ela conta a história de Roy Goode (Jack O’Connell), um caubói fugitivo de seu antigo parceiro Frank Griffin (Jeff Daniels), o terror americano da época. Para que não fosse encontrado, ele resolve se refugiar em um rancho perto da cidade conhecida como “La Belle”, onde, basicamente, só existem habitantes mulheres devido a uma tragédia local. Ao longo dos sete episódios, a trama é desenvolvida não só com Frank e seus 30 capangas atrás de Roy, mas também a história por trás do forasteiro e das demais personagens presentes na redondeza.

Como Goode havia levado um tiro ao fugir de Griffin, ele chega machucado a casa de Alice Fletcher (Michelle Dockery), cuja fama não é boa na cidade em que vive. Por ser viúva de dois maridos com tão pouca idade, as mulheres de La Belle a consideram má sorte para o lugar. Dessa forma, o refúgio não poderia ser melhor, visto que só teria que conviver com a dona, seu filho adolescente Truckee (Samuel Marty) e a sogra indígena que não fala uma única palavra em inglês.

Enquanto isso, na cidade, entre os poucos homens, além dos comerciantes, temos o xerife Bill McNue (Scoot McNairy), praticamente cego e, por isso, é um motivo de chacota e seu ajudante, Whitey Winn (Thomas Sangster), que é bastante habilidoso com as armas. Por mais que esteja com a visão prejudicada, McNue durante os capítulos, tentará se redimir e conquistar sua “sombra” de volta – algo que vários implicaram com o policial.Embora as relações sejam diferentes, visto que se passava em, praticamente, 150 anos atrás, alguns personagens podem ser considerados personificações de algumas atitudes de hoje em dia e, ainda mais, explicar alguns tabus. No caso de Griffin, em momento algum, o bandido temido era visto dessa forma por si próprio. Realmente, acreditava que estava perseguindo Goode por uma injustiça feita pelo mais novo e que, sempre que possível, ajudava aos necessitados. Só isso explica as cenas em que ele ajudou o resto de uma comunidade a passar pela varíola e, no final, não fazer nenhuma maldade com Truckee. Na cabeça dele, ele é, de fato, um ser iluminado e sem graves pecados. Tanto é que, em vários momentos, ele enfatizava que sabia a hora e motivo de sua morte. Frank Griffin se considerava acima de tudo e de todos, lembrando bastante o comportamento do presidente estadunidense, Donald Trump. Será que essas alegações absurdas de certos políticos não são verdadeiras, mesmo que na cabeça destorcida deles?

Além disso, a masculinização de Mary Agnes (Merritt Wever), irmã do xerife, traz uma discussão bastante interessante, em que a mesma não se rotula como homossexual, apesar de ter relações com a professora de seus sobrinhos. Como a própria personagem responde, toda vez que alguém a questiona pela mudança de visual, que o que ela tem com a antiga prostituta da cidade é uma troca de carinho e de companhia para a solidão. Naquela época, obviamente, já existia o olhar torto para ambas, mas a grande questão que fica a ser analisada é a de que não é preciso dizer que Mary Agnes é gay e que seu casamento era uma farsa, pois, mesmo sendo viúva, ela achou uma nova parceira para passar os terríveis anos pela frente.São questões como essas acima que a Netflix, mais uma vez, acerta em cheio o roteiro, o cenário e a verdadeira função de arte. É importante saber fazer com que o telespectador pare, pense e não somente crie casais para torcer e divida os personagens entre o bem e o mal. Todos em “Godless” são humanos, sem precisar de rótulos e títulos. Os únicos que precisam de cercas, por conta do comércio, são os cavalos de cada um deles.

Quanto ao nome, novamente, mostra um retrato do cenário atual, em que, aparentemente, não há nenhum Deus que nos ajude a superar as misérias, os ataques terroristas e todos os outros problemas a serem solucionados. Como Griffin aponta, essa terra não tem nenhuma entidade que vá ajudar – um tanto parecido com a falta de fé visível entre as sociedades contemporâneas.

Sem ter que se preocupar com “ships” e só aproveitar a imagem bem trabalhada e todas as metáforas, “Godless” começa devagar, mas termina de forma impecável e sem gostinho de quero mais. Foi suficiente, deu sua mensagem com n interpretações e, principalmente, terminou fugindo de qualquer tentativa de clichê.

Crítica: Godless
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