Crítica: Graduation

Um filme sobre a origem da corrupção do dia a dia. Graduation é um filme dirigido e escrito por Cristian Mungiu (“Além das montanhas”, “4 meses, 3 semanas, dois dias”). Estrela Adrian Titieni e Maria-Victória Dragus como protagonistas com uma atuação bem satisfatória. 

A história narra a vida de Romeo, pai de Eliza a tentar solucionar o futuro de sua filha depois que uma tragédia lhe acontece, a colocando como cúmplice de suas ações.

Romeo é um médico e vive ainda com sua filha e mulher, apesar de já não se falarem. Suas vidas têm uma sombra da falha e um sonambulismo espiritual quase enervante. Já falharam em seus sonhos de infância, restando agora apenas viver o resto dos dias a deriva, a merce do destino.

A única esperança de Romeo é sua filha, o futuro. De modo que aposta todas as suas fichas, sua reputação, seu caráter em prol deste toque alheio de vitória – a ambiguidade da frase não é coincidência. Como o “cidadão de bem” se vê cercado de outros iguais a si que sem hesitar justificam suas malezas e corrupções com frases como: “É apenas uma vez”, “é um caso extremo”, “você sabe que eu não sou assim na realidade”, quando toda a realidade prova o contrário.

Eliza precisa de notas para conseguir uma bolsa na Inglaterra. Ela é a própria metáfora destas vidas. O que importa é o exterior, não o interior que Romeo tanto despreza. Nada a espera naquela cidade, para ele. O futuro só pode ser fora daquele ninho do fracasso. Ele a havia criado para isso e neste “interim observar” e pouco a pouco destruir uma parte de sua filha que não consegue ver. Não à toa, o tema de colar na prova é tão simbólico, a mais inocente das corrupções, a mais banal e, ainda assim, o buraco na represa, a abertura para a imoralidade desenfreada, o começo do hábito, sua graduação a um mundo injusto.

Sua mãe representa os justos, porém também aqueles que nada conseguem sendo justos. É preciso de um mundo que aceite a justiça para se fazer justiça. A mãe apenas sofre em sua inércia da vida. O mundo foi surdo a sua retidão ética e lá calou-se.

A fotografia e direção do filme mostram uma delicada visão deste mundo de Romeo. Ainda que nos lugares mais abertos, a perspectiva que o público tem é de confinamento. Toda cena é cercada de paredes e há duas pessoas conversando, quando não, conspirando. De certa maneira, o filme critica também o mundo dos homens, o mundo da corrupção e a própria Romênia – incluiria o Brasil já aqui. Em suma, “Graduation” narra a gênesis da corrupção e como se mostra em seu mais escarlate desaborachar, debaixo dos panos, por homens de gravata, trabalhadores e “do bem”. Tal é a falácia.

Por Paulo Abe

Crítica: Graduation
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