Crítica: Hereditário

O cinema de terror é conhecido por produzir um número enorme de lançamentos e também pela sua popularidade. Trata-se de um gênero em alta, atualmente, mas é também um tipo de filme muito fácil de fazer, inclusive com baixo orçamento, e que costuma render bom retorno financeiro. Tal fato acaba fazendo com que muitas dessas obras sejam de péssima qualidade, genéricas e que podem passar despercebido por qualquer um que admire a sétima arte sem nenhum problema, o que até explica a resistência que o Oscar mostra a elas. No entanto, é inegável que peças primorosas do terror vem sendo lançadas nos últimos anos e que há uma grande repercussão acerca disso. “Hereditário” é mais um da lista, que apresenta claras influências de clássicos como “O Exorcista” e “A Profecia”, porém se assemelhando aos recentes “A Bruxa” e “Corra!”.

Ao invés dos fracos jump scares e convenções mais básicas para provocar medo no espectador, “Hereditário” vai além e estabelece características próprias. Não significa que não use recursos mais convenientes, mas esses se apresentam em menor número e com aplicação eficiente. A preferência aqui é por construir seus personagens e as relações entre eles, tudo em seu próprio ritmo. Dessa forma, conhecemos bem o núcleo familiar que protagoniza a narrativa, processo esse que leva boa parte da projeção. Ao fazer isso, os elementos sobrenaturais são inseridos pouco a pouco e engajam a audiência na medida em que ela passa querer solucionar o que está acontecendo junto dos personagens através das sugestões dadas pelo roteiro. Fato esse que se beneficia, aliás, do afiado elenco. A jovem atriz que atua como filha mais jovem do casal é, certamente, o destaque.

Nada disso funcionaria, entretanto, sem a concepção de uma atmosfera assustadora. Embora o teor gráfico mais explícito só apareça com mais frequência na segunda metade do longa, logo no início dele a trilha sonora faz questão de mostrar que algo de errado acontece. O que ouvimos é uma sonoridade dissonante, desagradável e com tom macabro, que se intercala com o silêncio. O fato de termos tempo para descansarmos os ouvidos faz com que não nos anestesiemos com a música e que ela ganhe força quando se faz presente. Por outro lado, o silêncio traz crueza para as cenas em que esse apelo é necessário. Da mesma forma, a fotografia que utiliza de sombras e do escuro para compor os cenários com enquadramentos verdadeiramente pavorosos.

Outro mérito vai para a direção, que sempre movimenta a câmera de forma inteligente. Seja mais perceptível ou mais discreta, ela entrega fluidez e domínio do diretor as cenas compostas aqui, combinando bem com outros elementos da linguagem audiovisual que “Hereditário” mostra. Focar bastante nos rostos dos personagens, por exemplo, diz muito sobre o direcionamento que o filme possui. Mais interessante ainda é notar como isso se forma durante a cena, mudando de um enquadramento para outro.

Por fim, “Hereditário” não decepciona e já pode ser considerado um dos grandes terrores recentes, funcionando, além de tudo, como metáfora para relações familiares. A única ressalva vai para o material de divulgação do filme, que possivelmente decepcionará parte grande do público assim como eventualmente ocorre em outras produções correlatas. Mesmo assim, isso em nada diminui as qualidades aqui apresentadas e que devem ser apreciadas não só por quem gosta do gênero como também por quem gosta do cinema como um todo.

Crítica: Hereditário
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