Crítica: Histórias Assustadoras para Contar no Escuro

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A escolha por ambientar “Histórias Assustadoras para Contar no Escuro” em 1968 não é mero capricho dos realizadores. Lembrado, principalmente, pelas manifestações estudantis na França e nos Estados Unidos, o “ano que não terminou” (nas palavras do escritor Zuenir Ventura) representou um período de intensa mobilização dos movimentos sociais. Entretanto, ao mesmo tempo, 1968 também deu provas da força do status quo frente às rebeliões, vide a permanência de Charles de Gaulle na presidência francesa e a vitória de Richard Nixon nas eleições estadunidenses. No Brasil, a situação não foi diferente: se em junho houve a Passeata dos Cem Mil, em dezembro o Ato Institucional Número Cinco (AI-5) foi decretado.

Portanto, não é preciso muito esforço para compreender o raciocínio por trás da ambientação de “Histórias Assustadoras…”: 1968 é basicamente uma versão comprimida do processo que tem se desenrolado ao longo dessa segunda metade dos anos 2010. No caso estadunidense, a transição do governo de Barack Obama para o mandato de Donald Trump, em que políticas progressistas e uma ilusão de Estado pós-racial deu lugar à ascensão do conservadorismo e ao agravamento das fissuras étnico-sociais.

Nesse sentido, as alusões que o filme faz a “A Noite dos Mortos-Vivos” corroboram essa interpretação. Lançado exatamente em 1968, o primeiro longa de George A. Romero é uma referência na utilização do gênero do horror como forma de explorar questões sociais. Não à toa, o primeiro momento em que os protagonistas de  “Histórias Assustadoras…” se encontram é quando, ao fugir de um bully, se escondem dentro de um carro estacionado em um drive-in onde é exibido o filme de Romero. Essa situação remete ao mote do longa de 1968, no qual um grupo de pessoas de diferentes realidades sociais se abrigam em uma casa durante um ataque zumbi. Além disso, a presença de um protagonista latino é uma clara atualização de “A Noite dos Mortos-Vivos” e seu protagonista negro. Assim como Romero utilizou Ben (Duane Jones) para discutir as tensões raciais entre negros e brancos e a violência policial contra a população afro-americana, o diretor André Øvredal usa Ramón (Michael Garza) para criticar a xenofobia trumpista contra a comunidade latina.

Por sua vez, a justaposição de Stella (Zoe Margaret Colletti) e Sarah Bellows (Kathleen Pollard) constrói uma interessante alusão ao apagamento das narrativas femininas ao longo da história. De um lado, uma jovem escritora de contos de horror que teme expor seus textos ao público, e do outro, o fantasma responsável pelas histórias assombradas que ganham vida ao longo do filme. Através da relação entre as duas, os realizadores apontam como o monopólio das narrativas nas mãos de apenas um grupo social (geralmente, homens brancos) contribui para uma visão simplista do passado e para a construção de visões de mundo herméticas e intolerantes. Assim, “Histórias Assustadoras…” defende a redescoberta de narrativas esquecidas pelo tempo e a importância da representatividade na formação de um universo narrativo plural.

Entretanto, apesar da louvável tentativa de Øvredal e dos roteiristas Dan e Kevin Hageman de levar a tradição do horror social a um público jovem, “Histórias Assustadoras…”, curiosamente, encontra na narrativa um empecilho para o seu sucesso. A ausência de trama e personagens genuinamente envolventes impedem o filme de atingir o seu potencial, fazendo dele um exercício teórico interessante, mas uma peça de entretenimento monótona.

Além disso, “Histórias Assustadoras…” falha como obra de horror, uma vez que investe em sustos óbvios e trabalha de forma bastante convencional a atmosfera, causando pouco efeito no espectador. Uma pena, pois, no geral, o design de monstros e criaturas é inventivo e merecia ser aproveitado de forma mais original.

No final das contas, é difícil ignorar completamente “Histórias Assustadoras para Contar no escuro”, pois toda tentativa de usar o gênero do horror para comentar o contexto político-social atual é válida. Entretanto, também não é possível fechar os olhos para a sua dificuldade em combinar satisfatoriamente o ativismo com a diversão esperada de um longa hollywoodiano comercial.


Imagens e vídeo: Divulgação/Diamond Films

Crítica: Histórias Assustadoras para Contar no Escuro
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